Entrevista com Boss AC: Ritmo, amor e hip hop

«AC Para os Amigos» alivia a densidade de «Preto no Branco» e encontra um Boss AC resolvido com a comunidade e esperançado no futuro.

Este «AC Para os Amigos» sai numa fase em que estás muito activo nas redes sociais e, particularmente, no Facebook. A noção de amizade alterou-se?
Isso é verdade. Hoje em dia, não dá para negligenciar as redes sociais porque me permite aproximar das pessoas. O sucesso da minha página, que é recente, mas tem crescido vem precisamente por falar com as pessoas. Eu já tinha uma página pessoal que não está assinada como Boss AC porque gosto de fazer essa distinção mas no que toca o artista, faz toda a diferença. É muito fácil chegar às pessoas e ter conteúdos exclusivos é uma forma fidelizar. Revelei muito do álbum, coisas que escapam nas entrevistas e tem a vantagem de ser em tempo real. Isso faz com que as pessoas partilhem o meu dia-a-dia o que, por vezes, está incógnito. Vês o artista na televisão mas depois não sabes o que é que ele faz durante o resto do tempo.

 

Isso não subtrai aura ao artista?
No meu caso, eu quero subtrair essa aura. Não quero criar essa distância. É que, ainda por cima, sou rapper e chamo-me Boss. Depois há o preconceito da ideia do rap americano quando a realidade é outra. As pessoas dizem-me que se eu fosse americano, era milionário e viajava de jacto mas não passa de um «se». Se a minha tia tivesse «tomates» era meu tio! Acabo por ser um privilegiado por me dar ao luxo de fazer o que gosto. Esse é o primeiro luxo de todos. Costumo dizer que faço o que gosto mas não recebo o que quero mas a verdade é que tenho sido persistente, teimoso até, e fiel ao meu plano. Desde 1997 que vivo exclusivamente da música o que é uma vitória e sendo rapper é uma segunda vitória!

Tu falas dos haters no álbum e a verdade é que o hip hop conheceu um boom em meados dos anos 00 mas agora está pouco activo. O que é que se passa?
I rest my case. Prefiro falar de mim e não dos outros. Já assisti a várias fases e eu estive presente em todas. Perguntam-me: «onde é que estão os teus colegas?» e eu respondo «pergunta-me antes onde é que eu estou» porque a vida é feita de caminhos e houve muitos que escolheram outros. Desistiram ou da música ou seja o que for. Eu mantive-me fiel e a cena dos haters faz parte. Lido com isso com algum humor. Não vale a pena sobrevalorizar isso. Tenho é que dar atenção aos meus amigos e não perder tempo com dois ou três gatos pingados que têm que ter sempre opinião. Nunca me prendi a dogmas, este é o meu hip hop e as pessoas estão no seu direito de gostar ou não mas do que eu não abro mão é do respeito. Ninguém me pode acusar de estar no hip hop pela moda porque eu tenho 36 anos e são 20 e tal anos de moda. São dois terços da minha vida nisso. No que toca ao hip hop, há muitos preconceitos de fora para dentro mas também há de dentro para fora e esses são os piores. Vejo o que faço como música e não me vou prender ao discurso do que é e do que não é. Tenho a certeza que os verdadeiros haters - aqueles que perdem tempo a falar mal e isto aplica-se a mim, a ti e a qualquer coisa – são fãs frustrados. Há muita coisa que eu não gosto mas não perco tempo a insultar nos sites.

Esse desprendimento dogmático é que torna a tua música tão heterogénea nos arranjos?
Sim, mas o fio condutor é sempre o mesmo. Não é um best of com vários estilos. Acaba por ser um reflexo da minha vivência, da costela africana da minha mãe, da cultura portuguesa, lusófona, brasileira, anglo-saxónica, do reggae e eu sempre incorporei. Sempre achei que era uma mais valia. Fala-se muito da universalidade da música mas esse conceito nem sempre é posto em prática. Eu ponho.

O álbum anterior era mais denso e pesado. Este não.
Sim sim. Quando me perguntavam se eu tinha sentido pressão a fazer o «Preto no Branco», eu dizia que não mas a verdade é que acabei por fugir de um «Princesa 2» e de um «Hip Hop (Sou Eu e És Tu) 2» e isso acabou por me condicionar. Evitei o mais do mesmo. Orgulho-me do que fiz, de todos os álbuns e nem sequer consigo ter um preferido. Não que isso tenha demasiada importância mas até foi o disco mais unânime de crítica. Este tem o que o «Preto no Branco» tinha mas de uma forma mais descontraída. Eu fiz um álbum com um conceito – ainda penso em formatos de álbum – e só faz sentido como um todo. Actualmente, lanças o álbum e esquece. Desde que passa para MP3 e está em shuffle acabou. Eu, por exemplo, perco muito tempo a pensar na ordem das músicas e não dispenso a consulta à ficha técnica. Saber quem é que gravou o quê e onde. Agora, obviamente o target - e eu nem gosto da palavra – do hip hop é o epicentro da cópia e do download. O «R.A.P.» vendeu 45 mil cópias o que equivale a uns 190 mil sem pirataria. E voltamos à Internet: agora é tudo imediato. Ouves falar de um artista e vais logo ver no YouTube ou Facebook. A Internet veio democratizar mas a quantidade não é qualidade. A filtragem passou a ser pessoal. E mais: compras um computador e um sequenciador e fazes um álbum. Lembro-me de ter entrado pela primeira vez no Angel (estúdio) e ficar deslumbrado. O preço do estúdio eram 20 contos por hora. Hoje já seria muito dinheiro, agora imagina na altura! É muito mais fácil fazer música e tirar intermediários. Pões a música no YouTube e tens um viral. Eu gosto disso. Independentemente da simpatia, as pessoas é que decidiram. Ouço muitos artistas a queixarem-se mas é preciso ver o outro lado. Recebo feedback de países onde nunca estive e isso só pode ser Net. Se não estás na Internet, não existes, aliás tu vais estar. A questão é perceber a melhor forma de gerir. No meu caso, tenho estado a tirar partido porque tenho uma abordagem muito pessoal e as coisas notam-se: desde que comecei a falar na primeira pessoa, aquilo tem crescido. O que eu também noto é a assiduidade. Começo a conhecer as pessoas! Tenho uma série de acções preparadas e já fiz uma ao mostrar o meu álbum em primeira mão a vinte fãs. É bom para eles e para mim. Eles têm direito a uma experiência diferente e eu fidelizei aquelas pessoas. Esses vinte trazem outros vinte e voltamos ao nome do álbum «AC Para os Amigos».

O hip hop tem uma ligação indelével a causas sociais e políticas mas agora que o clima parece propício a explorar esses temas, tu abordaste-os com humor. Porquê?
É óbvio que a crise não me passa ao lado mas eu não quis abordar de uma forma derrotista. Não quis ver o copo meio-vazio. A primeira letra do «Sexta-Feira» era o «Precário», falava da «crise isto, a crise aquilo» e arrumei. Não era por ali. A verdade é que a canção acaba por ter um toque de esperança. Também é preciso ver que a crise não é de hoje e os media têm culpa porque passam o tempo a falar no tema e cria-se um clima de depressão colectiva. E nós não estamos isentos de culpa porque há muito treinador de banca que no dia das eleições foi para a praia. Exerço o meu papel de cidadão activo mas não me rotulo de cantor de intervenção nesse sentido estrito. Nem sequer gosto da palavra crítica, prefiro usar observação. Mesmo aqui em Portugal, há muitos dogmas. Há uns anos, uma canção como o «Princesa» era impensável. Um rapper a falar de amor...eu pergunto: «quando estás em casa com o teu piteuzinho, ouves o quê? Wu-Tang Clan!?» (risos). Lembro-me que antes de editar o primeiro álbum, era uma espécie de Rei do underground e um dos meus êxitos era o «Anda Cá ao Papá». Quando gravei e explodiu, as mesmas pessoas que adoravam passaram a criticar-me. Eu percebo, todos gostamos de ter os nossos little secrets mas depois a aguinha explode e...Agora é mais complicado, é verdade, mas ainda acontece.

Talvez o Tyler, The Creator ainda represente isso em Portugal.
É. Tem vídeos do caraças. Mas é isso, a aguinha desconhecida passa a ser conhecida muito depressa. Eu não tenho esse problema porque já estou cá há muito tempo. Mas sabes que mesmo essa ala mais dura já se reconciliou comigo. Já perceberam que não vale a pena meterem-se comigo. Podes ter a certeza que sou uma fonte de inspiração e um exemplo para eles. Há um ano, estava num concerto e vi um grupo daqueles rappers mais cépticos. Não se meteram comigo mas entretanto houve um que veio muito sorrateiro atrás de mim para me dizer: «AC, é só para te dar props, tens-te mantido fiel a ti próprio e não ligues ao que as pessoas dizem». Depois voltou para os amigos e regressou àquela postura...Eu falo na boa com eles porque a minha questão de respeito. A longevidade e os anos de carreira falam por si e a questão da idade também conta. Eu já estou a bater nos 40 e a minha vida é outra. Cada vez vejo mais a minha música como música que, por acaso, é hip hop.

in DiscoDigital

 

Partilhar
Google+