Entrevista com J-K (Monster Jinx)

J-K é um mc que vive em Lisboa à 6 anos mas é natural de Sertã, tem 24 anos e faz parte da crew da Monster Jinx, sendo também membro da “Liga dos Cavalheiros Improváveis”. Em 2009 lançou o ep “Complexo de Inferioridade”, um trabalho inovador e com uma sonoridade diferente que promete trazer mais diversidade ao indie rap português.

 

 

 

Conta-nos o teu percurso até ao lançamento do ep “Complexado de Inferioridade”? Como é que a música surgiu na tua vida?

Foi um conjunto de supostos acasos criados pelas supostas escolhas livres e conscientes que eu fiz e que me trouxeram até aqui, mas no fundo foi tudo arquitectado pelo Jinx que segue os meus passos desde que nasci. Esta é explicação racional. Uma teoria mais maluca é esta: Eu comecei a escrever letras andava p’ra i no meu 9º ano. Mais tarde formei um grupo com outros 4 Dreads da Sertã chamado Frente 704, e ainda demos bastantes concertos, principalmente na zona centro. Mais tarde, quando já estava em Lisboa e era menos activo no que toca a rap, decidi gravar umas cenas e fazer um perfil no Myspace. Houve algum feedback positivo e isso levou-me a decidir gravar uma mixtape. Entretanto apareceu a possibilidade de fazer o ep pela Monsta Jinx e voilá, aqui estou eu.

 

Como é que foi a tua integração no colectivo da Monster Jinx? Já conhecias algum dos membros antes de isso acontecer?

O único membro da Jinx que já conhecia era o Nexus. Na altura existia a possibilidade de entrar no EP dele e foi também ele que foi mostrando ao Stray e ao DarkSunn algumas das minhas demos. A certa altura fui convocado para uma reunião com o Jinx que me fez perguntas sobre filmes de ficção científica série B e artigos da encyclopedia dramatica. Pelos vistos passei e agora só represento monster jinx, jonster minx 24/7 Free Pulso is da fuckin´shit.

 

Se tivesses que descrever a tua música a alguém que ainda não a tivesse ouvido, como é que o farias?

Diria que é tipo o diário de adolescente de um samurai imberbe com música por baixo. Diria que é rap, de um rapper que fala sobre coisas que vê e coisas que imagina, com oscilações de humor e cantorias desafinadas pelo meio. E diria que os instrumentais são muito bons porque tenho a sorte de trabalhar com produtores do melhor que há em Portugal.

 

Quais são para ti os princípios mais importantes da cultura Hip-Hop?

Todos são importantes. Claro que aquilo que o hip-hop pode fornecer enquanto cultura e movimento varia das experiências de cada um. No meu caso, considero importante a cultura de tolerância e aceitação da diferença. Mas mais importante que isso, acho que os “princípios” e a “cultura”  têm de ser mais do que meros chavões atirados de uma barricada para outra, entre os simpatizantes do movimento. Mais do que falar deles é importante interioriza-los e interpreta-los com inteligência e sentido crítico. No fundo, os princípios advogados pela cultura hip-hop são direccionados para a vida em sociedade e aplicam-se em variadas situações. Por isso pouco interessa vestir as virtudes e gritar palavras de ordem em defesa do  hip-hop, quando em relação a outros aspectos que podem ser tanto ou mais importantes não depositamos a mesma convicção.

 

Entre outros aspectos, o teu ep chama a atenção pelas letras. O que é que te influencia para escrever? Já escrevias antes de fazer rap?

Eu adoro escrever. Até já fui daqueles gajos que tinha um blog e opinava sobre cenas (lol). Tudo pode servir de inspiração para uma letra. Um livro, um filme, uma música, um programa de televisão, uma piada, qualquer coisa. Acho o que me leva mais a escrever é o mundo em geral e os problemas de andar nesse mundo. Na maioria dos casos as minhas músicas estão ligadas a pessoas ou acontecimentos concretos. Gosto muito de escrever, e gosto muito de escrever rap. É a forma mais viável que tenho para me exprimir.

 

Se pudesses escolher 3 músicos, com quem nunca tivesses trabalhado, para colaborarem contigo, quem eram os eleitos?

Só 3? A nível internacional: El-P, MF Doom e um membro de OFWGKTA (para poder estar no palco num concerto deles). A nível nacional, o Armando Teixeira, Manel Cruz e Sam the Kid. Não coloco mais mc’s porque gostaria ainda de trabalhar com muitos e felizmente acho que vou ter oportunidade de trabalhar com alguns deles no futuro.

 

Na “Cara de Poker”, dizes que “Já não consigo nem quero mostrar o que sou a este mundo”. Pelo que observo, não só neste teu ep mas também nos restantes trabalhos da Monster Jinx,, o orgulho em ser diferente e em ter uma postura independente enquanto músicos está bem presente. Achas que o panorama do Hip-Hop português seria diferente se esta atitude fosse mais predominante?

Primeiro quero esclarecer que o orgulho que a Monster Jinx ostenta na diferença não é reflexo de vaidade ou superioridade. Não dizemos “somos diferentes, somos melhores” ou “somos alternativos e isso é que é fix”, nem somos assim só por ser.. O objectivo é e será sempre fazer boa música seguindo apenas os padrões dos nossos gostos e vontades, e cada um faz aquilo que gosta, não está ninguém a apontar uma faca e a dizer “tens de ser mais indie, tens de ser mais esquisito”, aliás, o Jinx é um monstro ocupado e cheio de hustle por isso não tem tempo para isso.

Agora, não sei se o hip-hop português precisa de uma atitude mais independente. Há grandes exemplos de pessoal que sempre fez as coisas à sua maneira e conseguiu divulgar a sua música com sucesso e crescer em termos musicais e de base de apoio. O importante é  que cada um se sinta confortável e feliz com o que faz. Cada vez mais, sinto que tenho a obrigação de fazer o que me apetece sem me preocupar com o que poderia ser eficaz, ter mais impacto ou com aquilo que as pessoas estão à espera. É importante que sinta satisfação, independentemente das críticas menos positivas (há sempre). É isso que fazemos na Monster Jinx: Trabalhamos, evoluímos e divertimo-nos abundantemente enquanto fazemos isso.

 

Tens algum(uns) projectos futuros?

Sim. Muito em breve vou lançar uma mixtape que terá o nome de “Armadura Brilhante”. Estou também a trabalhar no meu álbum, que ainda não tem data prevista de lançamento mas estou a apontar para final deste ano ou princípio de 2012. Gosto disto, as pessoas são simpáticas por isso espero continuar por cá mais uns anos.

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