Entrevista com Rey

Fizemos algumas perguntas ao Rey homem do Norte que andou desaparecido e perdido pelo mundo mas o ano passado voltou a casa e lançou o seu primeiro álbum "Sua alteza o Vagabundo" e andou em tour pelo pais.

 

 

 

Finalmente lançaste o teu álbum, saiu com querias?
Eu estava do outro lado do mundo, tinha uma bicicleta e a minha cabeça pensava em tudo menos do que editar discos. Mas também estava era farto de voltar ao Porto e o pessoal na rua me foder a cabeça sobre este disco. Na verdade não te sei dizer porque é que isto aconteceu neste momento da minha vida. Talvez tenha sido uma reunião de factores que fizeram com que voltasse a casa com a disposição mental e dinheiro no bolso para tornar isto real. A um nível mais intimo eu precisava de encerrar este capitulo na minha vida e ainda bem que o fiz, mas se saiu em 2011 também podia ter saído em 2047 para mim dava igual. Nunca quis fazer a música do momento mas sempre tive a preocupação de fazer a música que faça sentido intemporalmente. Daqui a 10 ou 20 anos se for ouvir o que está implícito nestas músicas, sei que me vou encontrar de novo e isso é o mais importante. O único esforço que foi feito para mandar isto cá para fora agora, foi pôr o disco a soar a 2011. Acho que ainda haviam produções que vinham do tempo do FastTracker. Nesse aspecto o Alpha foi homem-chave. É um produtor que se desdobra em múltiplos estilos e eu funciono do mesmo modo. Não te posso dizer que o meu estilo é este ou aquele. No fundo, eu ouço de tudo e qualquer merda que me soe bem nos ouvidos para mim é música. O Alpha trouxe ao disco este espectro de sonoridades e ambientes que também reflectem aquilo que sou. Ele não teve medo de experimentar e distorcer as ideias originais que tinha para a sonoridade de certas músicas ao ponto de me convencer que elas poderiam funcionar num estilo totalmente diferente. Eu tenho um processo de criação pouco ortodoxo, é muito difícil para mim, sentar com um papel e caneta, a escrever em cima de um instrumental, as rimas surgem na cabeça e vão amadurecendo ao longo do tempo. Quando chego á parte do papel é apenas para alinhar os pedaços soltos e arquivar as rimas que andam á deriva no meu cérebro. Quando idealizo um instrumental os meus ouvidos só pedem peso o que nem sempre é bom, o Alpha absorveu isso mas transformou-o em música. Outro sócio que tenho que destacar neste processo todo é o Deck da Studium. Eu fui ter com ele com um camião de ideias que queria usar para transmitir o conceito da apresentação visual deste disco. O resultado final não ficou igual ao que queria, e ainda bem, porque detesto trabalhar com robots que apenas cumprem o que lhes pedes mas sim com gajos que desafiem o que tenho em mente, coloquem questões e façam a sua própria interpretação daquilo que ponho na mesa. Nesse aspecto o Deck partiu tudo e nem sequer vou mencionar a sua criatividade e qualidade técnica porque isso reflecte-se no trabalho que produz.
Eu sou o reflexo de toda a música que ouvi quando era mais novo assim como a que ouço hoje em dia. Ninguém é impermeável perante a influência que a música produz na formação de carácter assim como o modo como vês o mundo ao teu redor. Sempre tive isso em conta naquilo que produzo a nível pessoal. Esta história de fazer música vem acrescida de uma responsabilidade enorme porque quem está lá fora pega no teu disco e o ouve não é imune ao que lhe tens a transmitir. Quando chegas a esse ponto acho que tens que te sentir seguro do que estás a emitir é algo que seja espelho do que acreditas e ao mesmo tempo saber que contributo é que estás a dar ao mundo cá fora. A musica de hoje não desaparece a partir do momento em que a editas está ai para sempre Acredito que quanto mais musica consciente puseres nos ouvidos, mais forte te tornas. Esse é o caminho para a revolução, conheceres a tua força interior e usá-la na criação de uma sociedade mais justa. Podes querer mudar muita coisas neste mundo mas enfrentar-te a ti mesmo irá sempre o maior dos desafios, é necessário muita força interior. Se aquilo que faço a nível musical puder ser um contributo para tal, então é missão cumprida.

Andaste “desaparecido” durante muito tempo, queres falar por onde andaste? 
Não te vou responder a perguntas estilo Nova Gente.

Andaste em tour de norte a sul do pais, como foste recebido?
Casas vazias, bagaço até á morte e sócios valentes, foi um espectáculo.

Algum lugar que possas destacar?
Só o facto de poderes levar o teu sonoro para além das barreiras da tua cidade é uma honra enorme. Não me esqueço que sou um músico independente e se as coisas acontecem é pelo esforço de pessoas que acreditam que é possível construir algo á parte do que está instituído. Por todo o lado que passo estejam 5 ou 500 pessoas a ver o concerto, vão levar comigo em máxima potência. Vou tentar fazer aquele momento tão especial para eles como o é para mim. È por isso que sempre irás ver o Rey a tocar no tasco numa aparelhagem, na rua ou numa sala de espectáculos. Não ando a tentar ser a estrela do momento mas sim construir uma base sólida que sirva de suporte para quem vem a seguir.
As histórias são muitas mas vou-te dizer, em Celorico de Basto, acabamos a noite com batalhas de improviso sobre tractores e ambulâncias a carregar gajos em coma de bagaço. Trás-os-montes não brinca o pessoal é selvagem. E se tens a mania que és herói nem entres em Bragança, aquilo não é para meninos.

“Foda na Moda” e um dos hinos do Rap Português, o que sentes quando o publico a canta de ponta a ponta nos concertos ao fim deste tempo todo?

Se o povo diz que é clássico é porque é.

Podemos contar com um segundo álbum para quando?
Rap é uma parte integrante e fundamental na minha vida porque é a chave para o meu equilíbrio mental no meio do caos onde estou inserido. Hoje em dia se não fores uma máquina produtiva para este sistema és automaticamente excluído. O problema é que a exclusão passa por te retirarem o acesso ás necessidades básicas de sobrevivência, no fundo resume se a trabalho ou morte. Por muito que tente, ainda não consigo viver conformado com essa situação por isso ou faço Rap ou fujo para o mato ou mato alguém. Felizmente a minha forma de expressão permite-me fazê-lo em qualquer lado do mundo, seja num boteco no Brasil, nas montanhas na Califórnia ou numa rua qualquer do Porto não preciso de fazer discos para fazer Rap nem sequer ando preocupado em ser uma máquina de cagar Rap, já ai andam muitas.

Para quando algo dos CS de novo?
Há 10 anos que me fazem essa pergunta.

E outras colaborações futuras?
GHUNAGANGH

Foste uma das pessoas responsáveis pela “Poesia Violenta” como foi?
Há duas coisas que me orgulho de ter feito na minha vida, uma é ter atravessado Londres de ponta a ponta numa jangada construída por mim e mais dois gajos numa cave duma ocupa onde vivíamos, a outra é estar envolvido na criação da Poesia Violenta. A Poesia Violenta surgiu na altura em que cheguei ao Porto e senti que a cultura de improviso andava nas ruas da amargura. A nova geração de Rap no Porto é excelente, temos gajos ai a um nível estrondoso mas todos eles são tão bons que parece que têm medo de ser xungas. O improviso é isso, é não te preocupares com a merda que te sai da boca é rimar pelo puro prazer de o fazer .Nós decidimos fazer a Poesia Violenta com esse intuito de trazer de volta aquele espírito de rua em que o pessoal se encontra para dar umas rimas na descontra mas adicionamos-lhe o factor de batalha que é algo característico da cultura. Se tu reparares cada vertente leva a sua forma de expressão ao expoente máximo devido a este espírito de querer sempre superar o gajo ao teu lado. O espírito de batalha não pode morrer porque ai é condenar a evolução á estagnação. Hoje em dia a Poesia Violenta é um fenómeno incrível, e não é só pelo milhão e meio de visitas no canal online. É, porque não só ressuscitou a cultura de improviso como foi também uma força inspiradora para que outro pessoal se ponha a organizar batalhas com diferentes ou formatos semelhantes. Nas primeiras semanas, após a primeira edição fui convidado para ser júri numas batalhas de rua, quando cheguei lá e vi aquela gera toda pensei para mim mesmo, missão cumprida, o improviso está de volta. Poderia nunca mais haver nenhuma Poesia Violenta mas a verdade é que o Rap nunca mais vai ser o mesmo. Quando tu tens vídeos de pessoal nas aldeias nas festas da Nossa senhora do Fim Do Mundo a fazer batalhas de improviso, para além de te grisares todo também tens que entender, que se antes as novas gerações ganhavam o contacto com o Rap através de meios que o apresentam em formas distorcidas, hoje em dia elas conhecem-no na sua forma mais pura e sem duvida que a Poesia Violenta contribui imenso para isso. De facto no espaço de uma edição para a outra assistimos a gajos que viram a cena e começaram a rimar porque as batalhas de rua lhe deram motivação para tal. É a desmistificação do ídolo, do musico como ser superior, é transmitir a todos  que isto é para todos aqueles que o quiserem fazer. Isto não é só o fruto do trabalho de quem a faz e se esforça para que continuamente possamos chegar a outros patamares, mas é graças ao pessoal que vem e dá a cara, manda-se para a batalha e entende que perder uma batalha não é perder a guerra nem sequer o respeito na rua. A Poesia Violenta é feita pelos participantes, está na rua, não é um circulo fechado. Quem achar que a pode tornar melhor pode vir, estamos cá fora á espera. Inscrevam-se na próxima.

Podemos contar para breve com outra Poesia Violenta?
A próxima edição começa neste mês de Janeiro e a final é mais uma vez no Ringue da Arena de Matosinhos dia 4 de Fevereiro. Desta vez vamos mudar o formato e fazer batalhas de dois contra dois. Acho que vai ser brutal

Como achas que esta o estado do Hip Hop em Portugal actualmente?
Isso depende do que cada um entende como HipHop. HipHop como uma cultura de 4 vertentes que habitam no mesmo espaço, que dependem e se influenciam mutuamente, esse conceito já não existe.O Nas disse já uns anos atrás e hoje por estas terras assistimos ao mesmo. O HipHop está morto. E sim esse HipHop está morto. Mas não quer dizer que não tenha renascido noutra forma. Eu costumo ir ver umas batalhas de break aqui no porto e é raro veres lá alguém de outra vertente a curtir. Na verdade, hoje um b-boy já nem sequer ouve Rap, se lhe falares de Turntablism é a mesma merda que lhe fales de ciência aeronáutica. O graffiti ampliou-se de tal forma que hoje quem intervêm na rua artisticamente ou como vândalo, são pessoas que vêm de outras formações totalmente distantes do que podemos chamar HipHop. É claro que existe ainda muita gente que pratica HipHop na sua forma clássica, o interpreta segundo os cânones originais e luta para que a cultura clássica sobreviva, sem duvida isso é vital porque são as raízes fortes que fazem as arvores darem bons frutos. Mas isso não quer dizer que quem não o faz, não esteja a praticar HipHop são apenas visões diferentes sobre a mesma expressão. Por um lado ainda bem que se perdeu este aspecto tribalista e a cultura se expandiu para novos formatos. A ruptura é sempre um sinal de expansão.

Queres deixar uma mensagem para os seguidores do HipHopWeb?
Treina Escreve Arranha Pinta e cuidado com o sistema lá fora quando dás por ela já és mais um escravo.

 

 

Partilhar
Google+