Sir Scratch em entrevista: "O hip hop cresceu de forma muito positiva em Portugal"

Em vésperas do primeiro concerto de apresentação do seu novo trabalho, "Em Nosso Nome", estivemos à conversa com Sir Scratch, num café perto dos Armazéns do Chiado. Falámos sobre o novo álbum, o estado atual do hip hop nacional, os impostores do movimento e memórias do passado. Sir Scratch falou, também, sobre o concerto da próxima sexta-feira, revelando pormenores sobre o espetáculo. 

 

Palco Principal - Sete anos separam o álbum "Cinema" deste "Em Nosso Nome". A que se deve tamanho intervalo?
Sir Scratch - Este intervalo aconteceu naturalmente. "Em Nosso Nome" é um álbum que não planeei em termos de tempo, aliás, na música nunca costumo fazer grandes planificações - é algo que acontece naturalmente. Basicamente, andei nestes sete anos ocupado a fazer outras coisas, como bandas sonoras, mixtapes... E trabalhei com o Bob Da Rage Sense. Nos últimos dois anos é que fiquei outra vez com vontade de regressar aos palcos e surgir com um álbum novo.

PP - “A novidade chegou finalmente” - são estas as palavras que introduzem o teu novo álbum. Na tua opinião, "Em Nosso Nome" traz, de alguma forma, um conceito inovador ao hip hop nacional?
SS - Sim, porque sou eu a chegar com um trabalho novo e com uma mente nova e isso, por si só, é novidade. Mas a palavra novidade aparece aqui também com o sentido de boa nova, aquilo pelo qual se está à espera há algum tempo e que surge como uma espécie de resgate, não só para mim próprio, como também para aqueles que seguem o meu trabalho.

PP - Em "Em Nosso Nome" contas com a participação de vários artistas, muitos deles fora do universo do hip hop, o que transmite alguma diversidade sonora ao álbum. És da opinião que o hip hop em geral necessita de diversificar a sua sonoridade?
SS - Sim, acho que sim. O hip hop ganha muito com isso, visto ser um estilo que bebe muito de outros estilos de música, seja a nível do sampling, na produção, seja mesmo a nível de ideias. O hip hop veio, já por si, de outros estilos de música - através do funk, da soul... E eu acho que deve manter sempre essa característica de ir buscar um pouco aos outros estilos, para se reinventar. Daí a necessidade que tive em colaborar com outros artistas.

PP - O facto de teres no teu novo disco convidados fora do panorama do hip hop alargou a tua legião de fãs e ouvintes? Como tem sido o feedback das pessoas fora do movimento?
SS - É positivo ver pessoas e blogues de outros panoramas que não o hip hop a receberem o álbum de forma tão positiva. Eu tenho reparado nisso, até porque é sempre um risco quando saímos um bocado do nosso núcleo. Mas o feedback tem sido positivo, sim.

PP - O Tim é, sem dúvida, um dos ícones incontornáveis da música portuguesa. Como foi trabalhar com ele?
SS - Foi fácil. Eu não estive pessoalmente com ele no estúdio. Digo que foi fácil porque ele podia ter dito, simplesmente, que não, visto não o conhecer pessoalmente. Mas disse sim. Tinha um tema que transpirava muito rock e precisava de alguém com essa identidade, que conseguisse transmitir aquilo que eu estava a pensar em termos vocais e em termos, também, de mensagem. Na altura, lancei o desafio ao Tim e ele mostrou-se 100% disponível para fazer o tema. Gravou no estúdio dele, enviou e pronto! Estava feito.

PP - Trabalhaste também com um comentador da Sport Tv - o Carlos Barroca - no tema Por Desporto. Como surgiu a ideia de o convidares a participar no teu álbum?
SS - De uma forma muito espontânea. O filho dele, o Miguel Barroca, também joga basquete e é meu amigo. E eu tinha esse tema, no qual falava de vários desportos, fazendo jogos de palavras com isso. Como a música, na altura, não tinha refrão, o Miguel disse, em jeito de brincadeira: "Seria mesmo giro alguém um dia fazer um som onde incorporasse um relato  ou assim...". E eu respondi: "Olha, por que não? Podíamos falar com o teu pai!". Entretanto, ele deu-me o contacto do pai dele e o mesmo mostrou-se super entusiasmado com a proposta. Fomos ao estúdio e gravámos aquilo num take. Foi uma coisa diferente.

PP - Depois da mixtape "Incendiários", a qual dirigiste lado a lado com o Bod Da Rage Sense, tens o mesmo a participar no teu álbum. Anteriormente, já tinham colaborado com "Cinema - Entre o Coração e o Realismo". Consideras o Bob uma pessoa imprescindível nos teus projetos?
SS - Sim, claro. Da mesma forma que ele trabalha nos meus discos, eu também trabalho nos dele e isso reflete-se também em palco. Temos um nível de amizade e de partilha mútua muito especial, logo é natural querer partilhar aquilo que faço musicalmente com ele, e vice-versa.

PP - Quem Tudo Quer Tudo Perde acaba com um belo poema, na voz de Ingrid Fortez. O que motivou o convite à artista?
SS - Quando fiz o tema, senti a necessidade de ter um poema no fim e então lembrei-me da Ingrid. Conheci-a no Musicbox, há já três anos, se não estou em erro, no festival Silêncio. É um evento onde costumo ir sempre que posso, onde já participei, inclusive. As pessoas vão lá, basicamente, debitar poesia e lançar uns versos. Entretanto, fizemos algumas coisas juntos. Pareceu-me boa ideia dar-lhe o tema, explicar-lhe qual era a ideia e lançar-lhe o desafio.

PP - "Em Nosso Nome" apresenta-se, não só como um registo mais maduro, como mais intimista. Em temas como Vive, Fragmentos, Só Te Peço e Criatividade levantas o véu sobre o teu lado pessoal, como que uma espécie de desabafo. Sentiste a necessidade de te abrires mais para com os teus ouvintes?
SS - Não sei se foi necessidade... Talvez se deva ao facto de ter vivido mais. Foram sete anos. No álbum "Cinema", tinha 18/19 anos. Neste momento, tenho 27, ou seja, vivi muita coisa ao longo desse tempo e penso neste álbum como uma espécie de compilação destes anos todos. Acho, simplesmente, que fui sincero. Se falasse só sobre rap ou aspetos político-económicos, não estaria a ser sincero com os meus fãs a 100%. Todas as minhas experiências foram, de certa forma, abordadas neste álbum.

PP - No tema Faz Parte teces duras críticas a um género de MC's com os quais não te identificas. A que se devem tais ataques?
SS - Faz Parte é aquele som mais clássico do hip hop. É aquele tema direcionado aos falsos, aos impostores do movimento. A ideia surgiu através de uma reportagem que passou na televisão, na qual havia um rapaz que se denominava como professor que ensinava hip hop. E eu achei, de certa forma, ridículo o destaque que aquilo estava a ter na televisão, no "Telejornal", até porque ele era um dançarino que nada tinha a ver com o hip hop. O tema acaba por ser uma forma de educar. Nós temos essa responsabilidade como artistas. Temos a missão de conseguir chegar às pessoas novas que não conhecem, talvez por falta de informação, o hip hop, e saber dizer-lhes o que é o quê. Há gostos para tudo e eu não censuro - cada um faz o que gosta e cada um gosta do que quer, mas se as pessoas se querem identificar com o hip hop, é sempre bom haver alguém que diga: "Isto é assim e aquilo não é bem o que vocês pensam".

PP - Começaste a tua carreira com o duo Plunasmo e com participações em mixtapes, já lá vão 13 anos. O que mudou, desde então, no hip hop nacional?
SS - Mudou muita coisa. Mudou o profissionalismo, a qualidade, a exposição. Mudou a forma como as pessoas olham para o hip hop. Antigamente, era uma cultura de rua, discriminada. Era algo que se reduzia a 50/100 pessoas. Hoje em dia, vemos artistas como o Valete a encher o Campo Pequeno e vemos também artistas internacionais como o Kanye West a serem cabeças de cartaz de festivais nacionais. Acho que o hip hop cresceu de forma muito positiva em Portugal e continua no bom caminho.

PP - Sentes saudades desses tempos, não obstante a evolução positiva? De algumas práticas típicas desses tempos, como, por exemplo, o lançamento de muitas mixtapes e coletâneas... Hoje em dia já não é tão usual...
SS - Não é tão usual da minha parte... Apesar de ter isso como hobbie, já o faço a um nível mais profissional. Sou músico, é a minha profissão. Antigamente era mais ingénuo, havia mais aquela cena do teu grupo de amigos. Tenho saudades disso, de fazer só por fazer, de juntarmo-nos ali todas as noites e rirmos. Mas acredito que essas práticas ainda existam, por parte das pessoas que estão a começar agora, nos guetos e não só. Cabe-nos a nós, ou a mim, procurar e manter-me conectado com isso e vice-versa, de forma a que as pessoas não se mantenham ali, não se fechem naquele núcleo e consigam vir cá para fora.

PP - É já na próxima sexta-feira que vais apresentar o teu novo álbum no Musicbox. O que podemos esperar do espetáculo?
SS - É um concerto de apresentação, ou seja, não vai fugir muito daquela base do hip hop, que é o DJ e o MC. Vai ter convidados, vários. O disco tem imensas colaborações, pelo que terei cerca de seis ou sete convidados em palco. O que podem esperar? Não me vou focar muito no passado - vou focar-me no presente. Quero concentrar as atenções no novo álbum.

PP - Imaginas-te, algum dia, a tocar com uma banda em palco?
SS - Sim, é algo que tenho em mente, até porque já fiz algumas coisas com bandas ao vivo, entre mashups e colaborações, e tenho curiosidade em espremer o disco com uma banda, porque acho que traz outra musicalidade e outra liberdade. Mas, como este é um álbum fresco, lançado há menos de dois meses, ainda quero manter a forma natural do disco, para as pessoas se sentirem mais à vontade e conhecerem bem as músicas. Quem sabe se daqui a dois ou três meses não começamos a brincar mais com o disco...

 in Palco Principal 

Partilhar
Google+