Entrevista com Reflect

Reflect

Mais que uma entrevista com Reflect,  este texto e uma conversa em "sintonia" com o musico natural de Armação de Pera que se lançou num concurso promovido pela Alcatel e se prepara para lançar agora em Julho o seu segundo álbum. Para já, deixo-vos a " Sala de trofeus", videoclip que antecede o seu próximo álbum.  Espero que curtam a conversa com este MC e fiquem atentos!

 

HHW: O teu nome surgiu a 1ª vez ao público no concurso “ Alarga a tua vida – Alcatel REC 2”, com o tema “ Se Amanhã”, onde venceste a categoria Hip-Hop. O que te motivou a participar?
Reflect: A confiança no meu trabalho e a vontade de levá-lo o mais longe possível.
O tema “Se amanhã” foi escrito e gravado em 2004, no mesmo ano em que dei a conhecer a música “Pensa como seria”, que cantei também na gala do referido concurso. Não foram as duas primeiras músicas que fiz, mas foram as primeiras gravações feitas com qualidade aceitável. Penso que a diferença foi essa; não só para mim, mas também para as pessoas que ouviram.

Por ter sentido a aceitação que a música teve, decidi desafiar-me e tentar a minha sorte. As coisas correram bem e o tema espalhou-se rapidamente, coincidindo, para muita gente ainda hoje, com a primeira vez que ouviram falar de mim.
“Se amanhã” transportou-me do corredor da Escola Secundária para o país.

HHW: Em 2007, estreaste-te em CD na primeira edição da Kimahera com o “Duelo Mental” de Gijoe e Spell, como surgiu este convite?
Reflect: De forma natural, enquanto estávamos a gravar o disco em estúdio.
Depois de conjugarmos o nascimento da Kimahera com a edição online de “Atmosfera Hostil” – Dezman, passámos a ter como objectivo colocar nas lojas um disco com selo Kimahera.
“Duelo Mental” foi a oportunidade perfeita para que isso acontecesse, visto que foi um disco completamente original, da autoria de Gijoe e Spell. O meu nome surge de forma natural; já tinha colaborado com eles na saga “6 Elementos” que disponibilizámos gratuitamente. Aceitei de imediato o convite para participar no tema “Cirurgia Musical” e tive a honra de participar no álbum.

HHW: Deste então pisaste vários palcos nacionais com o teu grupo Evolusom, houve alguma actuação que te tenha marcado em particular?
Reflect: O curioso no nosso caso foi que fizemos dezenas de concertos sem ter nenhum álbum editado. Evolusom nasceu em palco e foi em palco que crescemos durante alguns anos.
No seguimento do concurso que venci, fui convidado a actuar no Arraial do Caloiro, no Técnico, em 2005. Sem dúvida que essa foi uma actuação marcante. Foi o nosso primeiro grande palco e foi nessa ocasião que o Gijoe se juntou a nós pela primeira vez. …acabámos a actuação, já havia uma banda a tocar no palco principal e tínhamos dezenas de pessoas junto às grades a pedir-nos para tocar mais. Não pudemos tocar mais numa noite que nos tocou.

HHW: Colaboraste também em vários projectos, como mixtapes e compilações, há alguma participação que destaques?
Reflect: Seria injusto destacar alguma das participações que tive o privilégio de fazer porque a minha entrega foi exactamente a mesma para todas elas. O que posso destacar em relação a isso foi o facto de ser algarvio, ter tocado poucas vezes fora do Algarve e ter recebido convites de gente de todo o lado. Só posso ficar agradecido por todas as oportunidades que me deram.

HHW: Em 2008, surge o teu primeiro projecto a solo “ Último Acto”, olhando para trás, como avalias este teu primeiro trabalho?
Reflect: “Último acto” foi o culminar de todo um percurso. Sinto-o como o meu “best of”. Reúne o que de melhor fiz desde que comecei, em 2002. O nome vem precisamente daí; do assinalar uma fase de transição, o final de uma coisa e o início de outra. A avaliação que faço só pode ser positiva. Fiz 1000 cópias e vendi-as. Consegui tocar ao vivo durante dois anos, estive em eventos importantes e pisei palcos grandes. Tudo isso foi muito gratificante, mas o que mais me deixa realizado é saber que sou inspiração para outros e que a minha música mudou alguma coisa no mundo dessas pessoas.

HHW: Contavas com o feedback que este obteve?
Reflect: Superou a minha expectativa.
Sempre acreditei ter valor. Isso leva a que alguma expectativa floresça. Essa expectativa é traduzida no número de cópias que mandamos fazer de um disco, num primeiro momento. A partir do momento em que o disco esgota e ainda há pessoas interessadas em comprá-lo, a expectativa fica superada. Matematicamente falando, é isso.
Agora vamos ao que interessa; pessoas.
Recebi imensas demonstrações de carinho, foi impressionante. É incrível como algo tão meu, tornou-se tão deles. Esta cumplicidade deixou-me com um sentimento de missão cumprida.
Obrigado pela dimensão que deram a este álbum.

HHW: Disponibilizaste a EP “Só” para download no teu site. Como foi gravar este projecto, só tu, no estúdio?
Rfelct: “Só” foi um ponto final. Serviu para arrumar a casa. Andei durante anos com algumas músicas/experiências perdidas, sem saber o que fazer com elas e decidi reuni-las num projecto simples, diferente, estranho. Tal como referi, foi algo feito nas entrelinhas do “Último acto”. As músicas nasceram todas por impulso. A emoção e a necessidade de passar algo cá para fora deram forma ao “Só”.

HHW: Sentes que foi como um acrescento, um ponto final ao “Último Acto”?
Reflect: Respondi à pergunta anterior sem ter lido esta. Estamos em sintonia. :)

HHW: Em fase final de preparação, tens o teu próximo álbum de originais. O que Reflect nos traz de novo com este trabalho?
Reflect: Voltei à fórmula inicial… ouvir uma melodia, escrever o que ela me transmite e gravar. Cada música é uma madrugada. Não que em algum momento não tenha sido, mas neste álbum sou ainda mais eu. Há mais de emotivo e menos de racional. Sou eu com mais alguns anos de vida, com outras experiências, com outra visão. Também com menos paciência e penso que essa seja a chave para que este álbum tenha ficado ainda mais incisivo do que o primeiro. É um disco mais curto, mas repleto de emoção e, acima de tudo, muita intensidade. Quis fazer menos temas, mas que tivessem uma carga emocional mais forte.

HHW: O videoclip do single de apresentação “Sala de troféus” já se encontra disponível. Como foi a realização e produção deste?
Reflect: A ideia para esta música nasceu num momento em que eu estava na sala de troféus do clube da minha terra - «Os Armacenenses».
Gravei o tema algum tempo depois, mas nunca me esqueci daquela imagem. Tentei manter-me fiel à projecção que tinha na minha cabeça e, com ajuda da equipa Kimahera, consegui reunir o necessário para filmar o vídeo. A pré-produção foi feita com tempo, o que facilitou bastante o único dia de gravações que foi necessário. Acabou por ser um processo rápido que foi muito natural porque veio tudo da minha cabeça, com o devido contributo das pessoas que acompanharam as filmagens.

HHW: “Sala de troféus” fala de sonhos pendurados. Qual é a principal mensagem que esta música nos traz?
Reflect: Temos a melhor vista do mundo e nem olhamos pela janela. Não temos tempo para isso. Não temos tempo para nada.
Sala de troféus ridiculariza essa mentalidade que se tornou viral entre as pessoas que vivem numa corrida constante e para quê? Porquê? “Coleccionamos” tanta coisa que não interessa e pelo meio vamos perdendo aquilo que mais importa – quem nós somos. Eu não sou o que fiz, o que fiz é o que fui. Eu sou o que posso fazer.
Por mais responsabilidades que nos pesem nos ombros, quando perdermos quem somos, então de nada serve tudo o resto.
É altura de sermos mais do que uma mera “sala de troféus”.

HHW: Para quando podemos esperar este novo álbum?
Reflect: O novo álbum será editado durante o mês de Junho de 2013, ainda não posso precisar um dia e as apresentações ao vivo começam no início de Julho! Será um álbum homónimo - “Reflect”.

HHW: Que projectos recentes destacas do rap Tuga?
Reflect: Olhando para as minhas mais recentes aquisições: Mind da Gap, Ex-Peão, DEAU, Capicua e W-Magic.

HHW: Como avalias o estado do rap em Portugal? E em Armação de Pêra?
Reflect: Também sou da opinião que já passámos de moda. Com esse virar de página, mantiveram-se por cá aqueles que cá chegaram pelos motivos certos.
Nós, portugueses, temos o privilégio de ainda poder ouvir e ver ao vivo nomes da nossa primeira geração de Hip-Hop. De ainda os ver a lançar discos, de sentir que se mantiveram fiéis e que continuam actuais.
É extremamente gratificante ver que ao lado desses nomes tem havido espaço para novos nomes.
Há que dar mérito a quem merece e sem dúvida que a ViciousEvents trouxe nova vida ao Hip-Hop.
Em Armação de Pêra há malta nova cheia de vontade. Neste momento já têm a sua independência a gravar e espero que venham de lá bons trabalhos! Precisam de espaço e de tempo para desenvolver uma identidade. Quando conseguirem isso, afirmam-se.

HHW: Com quem gostarias de fazer um som?
Reflect: Com os convidados do meu segundo álbum.

HHW: Podes enumerar um top 5 das músicas que andas a ouvir?
Reflect: Gabriel o Pensador - Linhas Tortas
Mind da Gap feat. Mundo - Há dias
Márcia - Deixa-me ir
Muse - Animals
Ornatos Violeta – Rio de Raiva

HHW: Para concluir, que mensagem deixas aos visitantes do HipHopWeb?
“O resto desta história são vocês que a vão escrever.”

 

 

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