Conversa com Virtus - Sexto Sentido

O seu nome não nos e estranho e mal o ouvimos impossível não nos vir a cabeça o seu ultimo álbum 'UniVersos' ou ate mesmo a EP que lhe deu reconhecimento'Introversos'. Tendo em conta o ultimo que foi autor único da produção, masterização e mistura de todo o projecto. Como o próprio Virtus diz, tinha de ser e o que tem de ser tem muita forca. Seguiu-se em paralelo um álbum de instrumentais, com um videoclip realizado pela irmã do artista e mais poderão saber ao ler a entrevista que se segue e que a dedicação deste produtor e rapper portuense vos toque tanto quanto a mim ao trabalhar nesta entrevista.

Por algumas criticas que me tenho concentrado mais no rap portuense agradeço que os artistas ou seguidores interessados em dar sugestões me contactem por via do HipHopWeb ou pela minha pagina de facebook.

HHW: Em 2008 apresentaste-te a solo com o teu EP `Introversos` o feedback que tiveste deste trabalho foi o esperado?
Virtus : Boas! Sim. Pelo menos acho que foi o merecido. Confesso que não fiz uma divulgação decente do trabalho, pensava e penso muito mais em fazer música. E por isso mesmo já sofri consequências por fazer as coisas de uma forma menos estratégica. Eu sei que, hoje em dia, não basta andar com cds na mochila. Tenho de me entender melhor comigo, estes últimos anos não tenho sido um bom agente de mim próprio na propaganda do meu trabalho. Relativamente ao EP, ainda hoje se ouvem uns ecos de reconhecimento. Isso é bom. Ainda dura! A ideia é essa: dosear a imortalidade da obra.

HHW: Em 2012 seguiu-se `UniVersos` como foi desenvolvida a produção deste projecto?
Virtus: Foi simples. Fui o autor do álbum todo. Gravei, produzi, misturei e "masterizei". Não fiz só para provar que sou capaz de elaborar algo tão sério sozinho, mas porque não tinha condições financeiras para levar o projecto a um estúdio de qualidade. Recorri à minha própria ajuda no meu gosto musical, pois seria a melhor forma de corresponder à estética sonora que eu pretendia principalmente nos beats, que é uma matéria muito mais além da "compressão". Sem menosprezar, há produtores que curtem "boom". Eu curto o "boom-bap" com aquele bombo e aquela tarola feitos ao milímetro para aquele instrumental! É claro que as opiniões do meu pessoal também contribuíram para o produto final. Não está nada por aí fora nem americanizado, mas está franco dentro das condições físicas que eu possuía para o conseguir. Posso dizer que desafiei algumas leis técnicas e desliguei-me de determinadas regras por ir somente atrás do meu ouvido, mesmo que já estivesse cansado e não fosse o melhor conselheiro, embora nunca me tenha abstraído da consciência. Era o que eu tinha. E o que tem de ser tem muita força.

HHW: Seguiu-se quase paralelamente um álbum de instrumentais da tua parte ` Se eu fosse...`, qual a razão para o lançamento de dois projectos seguidos, sendo ambos notoriamente fortes?
Virtus: O "Seu Eu Fosse..." foi uma ideia esboçada espontaneamente. Já há muito tempo tencionava lançar um projecto instrumental. Tenho centenas de beats, muitos deles antigos e nunca usados. Fiz uma selecção não muito minuciosa para não cair em tentações de fazer um álbum muito extenso, escolhi beats de várias fases minhas de produção, aperfeiçoei as sequências, misturei, e siga! É claro que, apesar de o processo de realização ter sido mais fácil que o "UniVersos", há sempre uma intenção cuidada por uma história, uma abordagem e aspectos que comprovam o sentido profissional combinado com o gosto de criar. A razão de ter lançado no mesmo ano não é de todo explicável. Apeteceu-me expor uma parte do meu vício e a paixão pela produção. Até porque o "Se eu Fosse...", além de estar disponível num formato acessível ao público em geral, trata-se de um conteúdo diferente do primeiro álbum, são linguagens distintas.

HHW: Como foi a produção e realização do videoclip `Outra vez Primeira Vez` a acompanhar este álbum?
Virtus: O "Outra Vez Primeira Vez" tem, como todas as minhas músicas, um carácter pessoal, é mais um anexo biográfico. É uma história contada sem palavras. Quem tomou totalmente conta do vídeo, desde a realização à montagem, foi a minha irmã Joana que está absolutamente de parabéns, deu à luz um dos vídeos mais bonitos que eu já assisti.

HHW: Enquanto MC consideras que o facto de seres produtor e uma mais valia a esta vertente?
Virtus: Claro que sim. Mas não é nada fácil gerir o tempo, por vezes até se torna confuso... não sei se escrevo ou se produzo. E algumas vezes nem um posso fazer. É difícil manter os níveis das duas vertentes, embora isso seja um ponto de partida fulcral para acrescer a vontade de fazer um tema escrito e produzido por mim.

HHW: És um dos elementos do `Sexto Sentido`. Como explicas a ligação deste colectivo enquanto família?
Virtus: O Sexto Sentido é um caso muito sério. É um colectivo muito especial que mora num minúsculo pedaço de terra algures neste mundo, sendo uma grande razão para um planeta como este ainda poder exercer o movimento de rotação. É a família dos melhores amigos.

HHW: Qual e o teu principal objectivo enquanto musico?
Virtus: Viver da música. E ficar por aqui. Quando digo isto refiro-me mais concretamente ao lugar de alguém que conseguiu ficar guardado nas pessoas; uma memória. Quero nunca sair das histórias que os outros contam com o meu nome.

HHW: Como avalias a situação do rap em Portugal? E na tua cidade , o Porto?
Virtus: Esta é uma pergunta à qual tento sempre fugir um bocado. Há sempre tendências para se criarem atritos por mal-entendidos sobre opiniões. Não sou rancoroso no que toca a estes assuntos. Perde-se muito tempo a falar disto, por isso é que consequentemente o Hip-Hop não ganha tempo para evoluir. Eu prefiro dizer frontalmente o que não curto porque a não há nada mais sensato, simples e genuíno que ter a verdade na cara. Portugal tem potencial para ser um país idolatrado na vertente lírica. Pessoalmente, não há muitos artistas com os quais me identifique, mas sei ouvir e reconhecer o que há de bom em cada um que mereça o devido respeito e valor. Relativamente ao Porto, a minha maior inspiração é o Sexto Sentido & AMR. Sempre que posso, actualizo-me sobre o que se está a passar por aí. O Hiphop, num ponto de vista geral, está a crescer em vários sentidos, fico satisfeito por ouvir temas, raps e beats um pouco mais afastados do habitual, o pessoal começa a parecer mais independente na criação. Ao mesmo tempo vejo um problema maior em distinguir a qualidade nos artistas da próxima geração. Eles próprios, eu e muitos outros, sabemos que estamos sujeitos ao público "geracional" que ouve música por fases de uma forma cada vez menos controlada. Mas este problema atravessa um país que paralelamente ainda permanece parado no tempo na visão sobre o que é bom e mau, e na aceitação de projectos diferentes. Para concluir, é preciso mais álbuns de Hiphop. Álbuns a sério! É preciso diferença. Influências, sim, faz parte do processo. Mas menos estereótipos. Não há nenhuma banda nem artista que leve consigo a verdade universal, é tudo uma questão de opiniões e a atitude sobre as mesmas. Não vale a pena contarmos o que não vivemos, como tantos pseudo comunistas e "homens do bem" que tentam influenciar e salvar os miúdos com dom de palavra através de citações dos livros de história, e até acabam por insultar pessoas como o meu Pai que lutaram na prática por um País que não tem vindo a corresponder a esse sacrifício. Nem eu me atrevo a fazê-lo, ouvi de perto essa realidade... "Não mexe!". Trabalho no meu contexto. Não existe em concreto o que é "correcto de se fazer", compensa bem mais um gajo ser sincero e fazer o que é correcto para si mesmo. Isso  é singularidade.

HHW: Com que artista gostarias de colaborar?
Virtus: Ui... Com imensos! Um deles, sem dúvida, o Sam.

HHW: Nos concertos que deste ao longo destes 8 anos no rap, houve alguma situação que te tenha tocado em particular?
Virtus: Sim, várias. Posso referir uma delas que, na altura em que foi, tocou-me especialmente: Imensas pessoas agarraram-me entusiasmadas no final dessa actuação, inclusive artistas, a pedir para tocar determinada faixa, repetir ou cantar outra. Acho que ninguém queria que eu fosse embora do palco. Fui praticamente "obrigado" a cantar mais músicas minhas. Todos os momentos são especiais e motivadores à sua maneira, sendo bons ou maus, mas esse foi muito simbólico exactamente por ter sido numa fase em que o meu trabalho ainda não tinha vindo ao de cima.

HHW: Que projectos recentes do rap merecem o teu destaque?
Virtus: Neste momento, oficialmente, posso mencionar que estou a trabalhar num projecto com tropas da minha crew: Chek (Enigma) e Myka, e o nosso Dj de eleição para este trabalho é o Abon. Todas as ferramentas do projecto são Made in SextoSentido. Não há prazo definido, mas está programado ser gravado neste verão. De resto, há parecerias ainda a cumprir e possíveis colaborações que não posso anunciar.

HHW: Que podemos esperar de Virtus para o futuro?
Virtus: Talvez a concretização de dois ou três projectos em parceria, e provavelmente o lançamento do meu próximo álbum com data para 2015.

HHW: No teu ver quantas vertentes compõem o Hip-Hop?
Virtus: Seis. Acho que o Hiphop tem vindo a sofrer ligeiras alterações pela positiva. A meu ver, o beatbox e produção também contam, cada vez mais.

HHW: Podes me dizer o Top 5 dos sons que andas a ouvir?
Virtus: Esta é difícil. É quase como me perguntares "Qual dos teus filhos é que mais gostas?"
Vou ter em conta apenas sons do Hip-Hop.
Bem... numa recordação imediata pode ser (não por ordem de preferência):
1 - Rakim - "18th Letter"
2 - B. Lewis - "Your Two Choices"
3 - Psycho Realm - "The Stone Garden" 
4 - Bahamadia - "Total Wreck"
5 - Da Grassroots - "Eternal"
(6 - Notorious B.I.G. - "Suicidal Thoughts")
...

HHW: Para concluir, que mensagem deixas aos visitantes do HipHopWeb que leram a tua entrevista?
Virtus: Mantenham-se unidos a vocês mesmos, apoiem o que sentem e façam o que realmente gostam. Continuem atentos a tudo o que puderem... O Hip-Hop é um pouco de tudo.

Grande abraço

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