A conversa com Abyss

O seu mais recente projecto trata-se da mixtape "Plano Oculto", mas não se contendo ao seus projectos pessoais como a mixtape "Código Vermelho" (Vol 1 e 2) e o seu grupo "Profetas do Submundo", de momento a preparar a primeira EP, Abyss e um dos impulsionadores do Hip-Hop em Santo Tirso, não só na organização de festas mas também no seu próprio homestudio onde apoia novos MCs que estão a começar a dar os primeiros passos nas rimas. Ha que louvar a forca de vontade e caracter do nosso entrevistado que eleva o valor da cultura rap não só em Santo Tirso como por toda a Tuga. Espero que curtam esta entrevista e ate para a semana. 

 

HHW: Para começar, falemos da recente mix com o Juva, como surgiu a ideia deste projecto?
Abyss: O projecto “Plano Oculto” surgiu de uma forma muito natural. Eu conheci o Juva, através de um amigo meu de Barcelos, o Dias, a partir daí começamos a falar e sentimos uma sintonia bacana entre nós. Ele sentia o que eu escrevia, e eu também o tinha como referência no hip-hop. O Juva acabou por me convidar para fazer um refrão duma faixa (que é parte integrante da mixtape “Plano Oculto”, a faixa “Era Antes”) ele sentiu a minha escrita, eu também fiquei vidrado no som dele, e começamos a escrever mais sons. A certa altura achamos certo reunir algumas das faixas que mais gostávamos das que tínhamos feito, e formar então o “Plano Oculto”.

HHW: Como tem sido o feedback a mixtape?
Abyss: Foi muito bacano, muito mais positivo do que aquilo que eu esperava, sinceramente. Dois dias depois da mixtape ter saído, já ouvia carros na minha rua a ouvir a mixtape, e pessoal na rua a ouvir as faixas no telemóvel. Houve muitas pessoas a sacar, muitos sites/blogs relacionados ao Hip Hop que adoptaram o projecto e o ajudaram a divulgar, assim como canais do youtube, como o Aristóteles que também nos ajudaram e muito na divulgação do projecto. Um obrigado a Hip-hop Web por ter um papel participativo também na divulgação da Mixtape, e das festas que temos vindo a fazer aqui em Santo Tirso.

HHW: Como correu a festa de apresentação no Carpe Diem?
Abyss: Sem dúvida das melhores noites da minha vida como MC. Foi a noite em que senti mais calor da parte do público, e que senti que o meu trabalho poderá estar no bom caminho. Pessoal a cantar refrões, a pedir mais sons no final, a cantar as faixas connosco. Foi mesmo muito bom sentir todo o carinho, e muito inspirador para trazer mais evolução e mais qualidade em projectos futuros. Fiquei consciente a partir dessa noite, que já represento alguma coisa para alguns ouvintes que acompanham o meu trabalho, e que a minha responsabilidade á medida que o tempo passa aumenta. Senti nesse concerto o peso de ser MC e a responsabilidade que isso acarreta, senti-me verdadeiramente “A voz das ruas”.

HHW: És um dos elementos do PDS, em vias de lançar a primeira EP certo? Como se iniciou o vosso grupo?
Abyss: Finalmente!!!! Esperamos no final deste ano ter o trabalho na rua. O nosso grupo começou em 2006. Sempre fui um apaixonado pelo Hip-hop e a paixão pela escrita surgiu também de uma forma muito natural e espontânea. O DMS (um dos elementos da banda) já escrevia rimas antes de formarmos o grupo, e a certa altura começamos a gravar algumas cenas no meu quarto e eu cantava a cenas que ele escrevia. Depois comecei também eu a escrever as minhas rimas, e convidamos o DLJ para integrar o grupo, e nasceu assim Profetas do Submundo. Partilhávamos os três a paixão pelo hip-hop portanto a criação do grupo foi um processo muito instintivo e natural.

HHW: Que projectos futuros te esperam?
Abyss: Neste momento, como tu disseste anteriormente, estou focado na EP de Profetas do Submundo. Como eu tenho um método de trabalho mais rotineiro que os restantes elementos, estou também já a preparar o terceiro volume da minha saga de mixtapes a solo “Código Vermelho”, estou também a começar a preparar o “Plano Oculto Vol.2” com o mano Juva. Tenho uma participação com MC’s do outro lado do atlântico (Brasil) que deverá estar para sair brevemente, e um vídeo-clip em parceria com outros MC’s da velha guarda tirsense que também deverá estar para sair. Entretanto, há mais um projecto em “águas de bacalhau” com pessoal de 
Barcelos e Vila de Conde, que penso que num futuro não muito distante, deverá estar também disponível para o pessoal ouvir. Mas neste momento estou mesmo focado na EP de PDS e queremos que o projecto esteja cá fora no final deste ano, ou início do próximo.

HHW: És um considerado um dos elementos impulsionadores da cultura rap em Santo Tirso. O que tens feito para desenvolver o hip hop na tua zona?
Abyss: Agradeço desde já o reconhecimento (eheheh). Estive envolvido na organização do Carpe Hip-Hop Fest, onde fizemos por volta de 6 ou 7 festas em dois anos, com nomes dos mais sonantes do hip-hop português, como Mundo, Berna, B27, Conexão Periférica, etc… Montei também há 3 ou 4 anos o meu home-studio, e estou a dar oportunidade aí a novos MC’s da terra para se exporem. E claro, todo o trabalho que tenho vindo a fazer no RAP é sempre com a consciência de que mais que retractar a minha maneira de ver o mundo, estou também a tentar consolidar o nome de Santo Tirso no panorama do Hip-Hop Português e a representar a realidade de uma grande maioria dos tirsenses.

HHW: Como avalias o rap em Portugal? E em Santo Tirso?
Abyss: Eu acho que o RAP em Portugal está em boas mãos. Aquilo que tenho ouvido ultimamente deixa-me sem dúvida reconfortado e tranquilo. Claro que há muito pessoal a fazer música que não me diz nada, mas sinceramente eu não me preocupo muito com isso, porque pessoal representar uma cultura só por moda há em todo o lado, e normalmente isso são sucessos de “Fast-Food”, o pessoal come, até pode curtir de inicio a onde dele, mas pouco tempo depois acaba por “cagar”. Só acho que os ouvintes ainda não dão muito tempo de antena a MC’s da nova formação, e há aí pessoal a rimar com muita qualidade e sentimento, culpa também por vezes dos organizadores de festas que não dão oportunidades a novos talentos de aparecer, mas isso com tempo irá mudar certamente, e o pessoal da novo formação já está aí a querer organizar as suas próprias festas e a criar pelos seus próprios meios. Aqui em Santo Tirso, ainda é tudo muito prematuro. As festas que eu fui organizando fizeram sem dúvida aumentar o número de consumidores de Hip-Hop por cá, mas ainda é tudo muito fresco e novo. Queremos com a EP de PDS também animar um bocado as coisas, aumentar a legião de seguidores do movimento e incentivar novos MC’s a rimarem, a acreditarem no sonho fazendo passar os mesmo valores e ideais que os MC’s que temos como exemplo nos passaram na nossa altura.

HHW: Que projectos recentes da tuga merecem o teu destaque?
Abyss: Eu já consumia a música dele, mas o Virtus surpreendeu-me muito pela positiva neste ultimo trabalho. Grande álbum  Deau também claro, mas a opinião é quase consensual. Blasph também tenho sentido muito. Não é muito o meu estilo de RAP mas a atitude dele cativa-me, sem duvida. álbum de Spittah “Filho da Verdade” também está para mim um dos melhores álbuns feitos nos últimos anos. Cheio de qualidade, instrumentais poderosíssimos e rimas de meter as mãos á cabeça. L também para mim é um MC’s com valores Hip-Hop, com muita qualidade na rima e com ar fresco nos sons. Não tenho dúvidas de que iremos ouvir falar cada vez mais dele. Ouço também muito pessoal aqui da zona, Saul de Barcelos, Quartel 469, Amizade, o mano Juva e o mano Sentido que lançou agora uma mixtape em que tive o prazer de entrar “Eu e os meus (in)Versos”. Tem sido os projectos que tenho dado mais tempo de antena nestes últimos tempos.

HHW: Qual o top 5 dos sons que andas a ouvir?
Abyss: Eu ouço muito coisa, não tenho “x” músicas que ouça com mais frequência, aprendi ao longo dos anos a degustar álbuns de artistas que gosto. Mas o que tenho ouvido assim com mais frequência que me lembra por agora é, Evidence – You, o último álbum de Chullage tem tocado quase em loop no meu PC mas das faixas que sinto mais são, “Já não dá”, “Barrigas Vazias” e “S.E.F.” e talvez REKS – 25th hour. Mas nomear um top 5 daquilo que ouço é muito redutor, porque ouço mesmo muita coisa no meu dia-a-dia, e dou muito do meu tempo de antena a outros artistas que não referi aqui.

HHW: No teu ver quantas vertentes compõem o Hip-Hop?
Abyss: Na minha opinião há mais do que quatro. O Beatbox considero já há algum tempo uma vertente com bastantes seguidores no Hip-Hop. Antigamente quase todos os produtores eram também MC’s, mas hoje em dia vemos muita gente a produzir sem escrever, portanto tenho de considerar também a produção uma das vertentes do movimento. E infelizmente é muito difícil o rap ter tempo de antena nos midia, portanto tenho de considerar também todo o pessoal que cria blogs, ou sites com o objectivo de difundir a cultura, uma das vertentes também, pois sem esses meios era cada um por si, e não havia um núcleo de informação como existe hoje.

HHW: Com que artista gostarias de colaborar?
Abyss: Eu gostava de colaborar com toda a gente que se identifique com a minha música, que sinta o que eu faço, e que se insira dentro dos mesmo códigos que me ensinaram em tempos, como artista e como pessoa. Fazer música para mim é muito pessoal e intimo portanto não o partilharia com qualquer um, por muito que fosse um nome relevante na música e que me pudesse dar visibilidade, por isso não tenho nomes de artistas de consenso comum com quem eu gostaria de participar, só um modelo de artista. 

HHW: Qual e o teu principal objectivo enquanto musico?
Abyss: Isso agora…. Ehehe… Como é óbvio pretendo chegar ao máximo de pessoas possíveis. Mas é como eu digo, “não movo caras, toco em corações”, não quero fazer mover multidões sem que percebam e sintam a minha mensagem. Mas a meta final seria poder viver com a música. Mas não tenho pressas, tudo a seu tempo. Quero conquistar o meu espaço com a maturidade e responsabilidade necessária, com o meu trabalho e mérito, não herda-lo ou tira-lo a alguém.

HHW: Para concluir, que mensagem deixas aos visitantes do HipHopWeb que leram a tua entrevista?
Abyss: Um muito obrigado por consumirem a minha música (vocês estão a alimentar o meu sonho), e obrigado por terem despendido alguns minutos da vossa vida a conhecerem-me melhor, e a conhecer o meu trabalho. Como nota final, agradecer também ao pessoal da HipHopWeb, por darem espaço ao pessoal da nova formação e apoiarem os novos intervenientes da cultura, e agradecer á Spitz pela entrevista. Muito obrigado pelo tempo de antena. O resto, quem me conhece já sabe… É SANTO TIRSO BROOO!

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