Entrevista com Spittah

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O meu entrevistado esta semana e Spittah, MC e produtor de Vila do Conde, conhecido pelo seu rap interventivo, lançou este ano o seu primeiro álbum a solo, "Filho da Verdade", repleto de rimas directas, que podem ouvir no site do próprio. Quanto as suas motivações, penso que esta entrevista vos ira esclarecer, espero que gostem.

 

HHW: Como surgiu o rap na tua vida?
Spittah: De forma bastante natural,sempre gostei de musica e sempre necessitei de ouvir musica.Conheci o rap numa primeira instância por bandas mais mainstream e identifiquei-me bastante com os conceitos.Posteriormente aprofundei a minha pesquisa…e todo o conceito de família/união/intervenção que a explosão definitiva do rap tuga trouxe em 2000/2001,criaram os elementos necessários para que eu sentisse que tinha descoberto o meu estilo e que de certa forma até poderia contribuir para ele.

HHW: Começaste o teu percurso artístico com participações em maquetes e mixtapes,alguma que te tenha marcado em particular?
Spittah: Penso que não…todas essas maquetes e mixtapes foram apenas um instrumento de desenvolvimento,não foram feitas com um sentido ou um objectivo específicos,só as fiz porque sentia que me ajudavam a evoluir…actualmente não aproveitava uma única musica dessa altura.

HHW: O teu grupo Nostrum Liberdad foi formado com MC Stregul para quem ja tinhas produzido a sua EP, o que vos levou a produzir um álbum em comum?
Spittah: Nós começamos a fazer musica juntos,e tivemos um percurso bastante semelhante…até que decidimos que tínhamos capacidade de fazer um álbum.Todo o processo de criação/gravação demorou cerca de 4 meses a ser feito e isso reflectiu-se um pouco na qualidade final. Infelizmente por conflito de ideias Nostrum Libertad acabou e eu continuei a solo…basicamente aquilo que eu faço hoje é uma versão mais minha do que começou a ser desenvolvido com aquele álbum.

HHW: Porque a escolha do nome Nostrum Liberdad?
Spittah: Nostrum Libertad é a tradução em latim de: "a liberdade é nossa…" e era isso que tentávamos transmitir…escolhemos o nome em latim porque se adequava ao tema e ao carácter que queríamos apresentar.

HHW: Este ano lançaste o teu primeiro álbum a solo Filho da Verdade, qual a principal mensagem que pretendes te mostrar neste projecto?
Spittah: Como o próprio nome indica,este álbum é quase como assumir um compromisso com a verdade.Eu predisponho-me a relatar a verdade,apenas a verdade e nada mais do que a verdade,independentemente das consequências que isso me possa trazer…e independentemente de saber que o teor critico e agressivo das minhas musicas me descartam logo a partida do ouvinte mais sensível.Quando te predispões a fazer este tipo de musica sabes que não podes voltar atrás,é um ponto sem retorno,quem te ouve fá-lo porque quer e não porque tem o teu refrão bonitinho no ouvido…tudo se baseia em integridade,honestidade e humildade.Intitular-me "Filho da Verdade" é um peso um bocado forte mas eu tento não desiludir,e isso torna-se mais fácil se não iludir quem me ouve.

HHW: O seu próprio nome, mostra o carácter interventivo do teu rap, consideras a tua escrita com essa mesma característica?
Spittah: Sem duvida,eu não me considero um grande poeta ou um grande musico…simplesmente acho que tenho capacidade e necessidade de transmitir de forma simples e directa aquilo que penso…enquanto existirem flagelos eu vou sentir necessidade de escrever.Possivelmente um dia em que uma hipotética sociedade utópica seja criada,onde não exista a mentira e tudo o que dela advém,vou pousar a caneta e deixar a musica para quem realmente tem talento para faze-la…e viver de forma anónima,contente com a minha vida,porque se acabaram todos os motivos que eu tinha para fazer musica.

HHW: Como tem sido o feedback a este álbum?
Spittah: Extremamente agradável…não por receber feedback em larga escala mas sim por estar a receber incentivos de todo o tipo de faixas etárias e classes sociais…isso comprova um pouco o quão grave é o estado do nosso País neste momento.Tenho recebido feedback de pessoas dos oito aos oitenta e com gostos musicais bastante distintos e variados,o que eu assumo como um bom indicio de que estou no bom caminho para atingir os meus objectivos.

HHW: Qual a faixa que destacas e porque?
Spittah: Todas as faixas foram feitas em instâncias diferentes da minha vida e todas tem um significado para mim,por isso seria injusto escolher apenas uma…para alem de que eu tenho uma forma um pouco diferente de olhar para os álbuns,que começou a ser moldada há uns anos atrás quando vi uma entrevista do Sick Jacken dos Psycho Realm em que ele dizia que era do tempo em que metias um cd ou uma k7 no deck e ouvias até ao fim como se de uma historia se tratasse…aquilo ficou-me na cabeça e mudou a minha perspectiva…um álbum para mim não é uma junção de musicas,é como se fosse apenas uma grande musica,em que tu sejas capaz de o ouvir do inicio ao fim sem saltar nenhuma e sem ficares com a sensação de que algumas não se encaixam no contexto…e foi isso que eu tentei e continuarei a tentar fazer,se serei bem sucedido ou não isso ja cabe a quem me ouve decidir.

HHW: Tiveste 4 convidados neste álbum, qual a razão que te levou a convidar cada um deles?
Spittah: Neste primeiro álbum achei que só devia ter participações de mc's com quem tenho uma relação de amizade.O Kid participa em 2 sons,tem um papel primordial na minha musica,é a voz da razão quando eu vacilo,acompanha-me em palco,tenta sempre incentivar-me a fazer mais sons,a não parar e a exigir cada vez mais profissionalismo do meu trabalho…este álbum é dele também.O Abyss já a bastante tempo que andávamos para fazer um som juntos,surgiu a oportunidade e materializamos esse desejo,pois é um mc que eu respeito bastante pelo que tem feito pelo hiphop em Santo Tirso,e que eu considero que tem um talento bastante elevado…assim como o Dms e o Jungle que são os restantes elementos de Profetas do Submundo,com os quais certamente terei oportunidade de trabalhar no futuro.O Dj Flip e o Zulu são membros do quartel 469 e alem da relação de amizade que mantemos e de o Flip,sempre que pode,me acompanhar nos concertos,eles participam no meu álbum pelo elevado respeito que tenho por aquilo que quartel construiu…eles partiram do zero,cultivando os mais novos e conseguiram construir um núcleo enorme de hiphop em Barcelos onde toda a gente esta perfeitamente familiarizada com os conceitos que o envolvem,o que faz com que qualquer festa la seja sinónimo de qualidade…sem duvida alguma gostava que os restantes membros de quartel tivessem também participado no meu álbum mas a oportunidade não se deu…fica possivelmente para uma próxima.Saliento ainda que me faltaram 2 participações por se encontrarem fora do País,o Juva e o Dias que para alem de serem como dois irmãos para mim são fundamentais na minha musica e são razões de peso para eu não desistir nas adversidades.

HHW: Porque decidiste lançar uma versão online e uma física?
Spittah: A minha musica é feita do povo para o povo e como tal por mim oferecia-a de boa vontade de forma gratuita a toda a gente que a quisesse ouvir…mas para alem de um álbum feito de forma independente ter bastantes custos,com o "boom" expansivo que a internet trouxe,começamos a viver num paradoxo…que é,por um lado se disponibilizas um álbum ou um ep para download não te levam muito a serio porque se tornou fácil faze-lo…e por outro se tens o álbum a venda ja te levam a serio mas ninguém que não te conheça previamente o compra…então tentei tornear isso disponibilizando umas musicas do álbum gratuitamente no meu site para que as pessoas que desconhecem o meu trabalho avaliem e decidam se realmente o querem adquirir.

HHW: Em que te inspiraste para o artwork do teu álbum?
Spittah: Eu sempre fui fã de banda desenhada e também sou fã de metal sinfónico nórdico onde as capas épicas em B.D. repletas de significado imperam. Então elaborei uma ideia dentro desses parâmetros mas com um significado que se aplicasse ao álbum…A parte da frente tem um feto com um microfone na mão,dentro de uma incubadora que esta ligada a um polígrafo…para ilustrar o nome do álbum (Filho da verdade).A parte de traz tem o planeta terra aberto a meio com um cérebro gigante no centro,conectado a um microfone erguido por o punho de uma ilustração semelhante a mim…a ideia era que o microfone fosse quase como uma excalibur do conhecimento.Tal como em todo o álbum,tentei que a capa traduzisse também uma mensagem.

HHW: Consideras que o facto de seres produtor te facilita o trabalho como MC?
Spittah: Sim…talvez há uns anos atrás não notasse tanto isso porque escrevia para os instrumentais que produzia…hoje o meu método é diferente.Primeiro elaboro a musica na minha cabeça,assim quando me decido a escrever já sei exactamente aquilo que vou dizer,só tenho que encontrar a forma mais interessante de dize-lo…e posteriormente produzo para a letra que escrevi adequando o instrumental à letra e não o inverso.Evitando assim que fique algo por dizer ou que diga de mais e a musica perca consistência…o que não quer dizer que não escreva para instrumentais já feitos,mas este é o método que mais gosto de utilizar quando trabalho sozinho.

HHW: Qual o palco que mais gostaste de pisar?
Spittah: Sem duvida tenho que destacar o concerto no avante 2011…primeiro porque tive que vencer 3 eliminatórias contra bandas extremamente talentosas para la chegar,o que de si ja me deixou satisfeito.Depois porque esse concerto teve uma situação bastante caricata…quando me preparava para subir ao palco,espreitei pela parte lateral para observar o ambiente,e vi umas dezenas de pessoas,algumas sentadas na relva e achei que a plateia estava composta…Posteriormente os concertos no palco principal acabaram e o Dj Flip subiu ao palco para dar inicio ao nosso,após alguns scratches e uma intro eu subi ao palco e o que vi deixou-me quase de boca aberta…tinha cerca de 1000/2000 pessoas a minha frente,não havia um único espaço despovoado e todas num ambiente fenomenal mesmo.Senti uma mescla de excitação com medo e desejo de corresponder aquilo que a plateia pedia de mim…foi um dos pontos altos da minha carreira,mesmo desconhecendo o meu trabalho o publico foi excepcional e nunca mais esquecerei o carinho que me deram a mim e a quem me acompanhava.

HHW: Com quem gostarias de fazer uma colaboração?
Spittah: Tenho bastantes pessoas com as quais gostava de colaborar,mas não vou mencionar nomes pois isso não se adequa muito ao meu perfil. Deixo a questão em aberto,respondendo ao longo do tempo com os meus trabalhos futuros.

HHW: Numera me o top 5 das musicas que andas a ouvir!
Spittah: Esta questão vem um pouco ao encontro daquilo que disse umas perguntas acima acerca do conceito dos álbuns…prefiro enumerar um top 5 de álbuns que ando a ouvir,sem ordem de preferência: R.A. The Rugged Man-Legends Never Die-Slayne-The Boston Project-Virtuoso & Snowgoons-CoVirt Ops:Infantry-Ill Bill-The Grimy Awards-Vinnie Paz-God Of The Serenguetti

HHW: Como avalias a situação do rap na Tuga? E em Vila do Conde?
Spittah: Penso que houve uma altura em que o hiphop em Portugal esteve um pouco em declínio pois não surgiam projetos novos com qualidade e os projetos mais antigos também não davam sinais de vida…mas isso mudou,e penso que agora estamos numa fase de ascensão com otimos trabalhos tanto da velha como da nova escola o que me deixa bastante curioso de ver como ambas se vão fundir.Em Vila do Conde o hiphop ainda passa por uma fase de desenvolvimento,mas apesar de não haver muitos projetos,os que há são bastante distintos e profissionais com álbuns e mixtapes  lançadas como é o caso de Undergredo, Dareal, Independente, Pocket, etc…e claro que não podia deixar de mencionar o tremendo trabalho no campo do grafitti que a crew F.B.I. tem desenvolvido ao longo dos anos…basta visitar a cidade e comprovar com os próprios olhos.

HHW: No teu ver quantas vertentes compõem o Hip-Hop?
Spittah: A meu ver existem sete vertentes e todas tem uma importância equivalente no bom desenvolvimento do movimento.Às quatro vertentes típicas eu junto a produção,o beatbox e os ouvintes/espectadores…tendo estes últimos um papel vital.

HHW: Para concluir, que mensagem deixas aos visitantes do HipHopWeb?
Spittah: Obrigado por lerem esta entrevista,continuem a visitar o site,a apoiar aquilo que de melhor se faz em Portugal e nunca permitam que as grandes corporações ditem os vossos gostos sejam eles quais forem,vocês são livres de escolher… Deixo ainda um obrigado sincero ao HiphopWeb e a Spitz por esta entrevista,continuem a desenvolver o otimo trabalho a que já nos habituaram.