Entrevista com Kap

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O jovem portuense Kap, já conta com um portefólio de 3 projectos prepara-se agora para o seu álbum de estreia. 
Obstáculos não param este MC e produtor que ainda tem muitas cartas a dar no rap e se apresenta com futuro bastante promissor como poderão concluir.
Mas antes de passarem à entrevista revelo-vos que esta foi me sugerida pelos seguidores de Kap, na minha página de facebook, por isso caso conheçam alguém ou se vocês mesmos tiveram um projecto que mereça ser divulgado no site não hesitem em contactar-me.

HHW: Com 18 anos, podemos dizer que  tens uma boa discografia no cartório  o que te marcou em particular em cada um destes 3 projectos que lançaste?
Kap: Boas! No primeiro projecto, a mixtape, talvez me tenha marcado a falta de consciência e noção com que a fiz. Não é um projecto do qual me orgulhe porque já passou tanto tempo e as diferenças já são tantas que para mim já não faz muito sentido o projecto em si. Aquilo basicamente são as minhas primeiras 11 ou 12 músicas. No segundo projecto, o 1º EP, foi quando eu me apercebi que havia realmente pessoas que eu não conhecia a ouvir-me e a seguir-me e mais ou menos quantas eram, e foi também o projecto que me levou a tocar a uma Low Cost No Loss no Hard Club organizada pelo Né. Este último projecto, o 2º EP, é especial por vários motivos... foi todo produzido por mim, já se nota muito mais um estilo próprio em desenvolvimento tanto em beats como em MCing, foi o trabalho que chegou a mais gente e também o trabalho do qual recebi as melhores críticas.

HHW: O primeiro projecto "16 anos acumulados" foi em formato mixtape, enquanto os outros dois que se seguiram ja eram de originais, deve se ao facto de teres começado a produzir entretanto?
Kap: Eu comecei a dar os primeiros passos na produção quando estava a fazer a mixtape, tanto que alguns beats da mixtape são meus (os meus primeiros beats). Mas depois de me começar a sentir mais confortável nos beats deixou de fazer sentido pra mim rimar em beats que não meus. E no 1º EP não produzi tudo por preguiça, duas faixas foram produzidas por um MC/Produtor meu amigo chamado Anti, mas neste último EP já fiz questão de produzir tudo e daqui para a frente posso assegurar que tudo o que for projecto meu a solo vai ser inteiramente produzido por mim.

HHW: Quais são os meios que utilizas para produzir?
Kap: Eu neste momento produzo no Reason com a ajuda da minha companheira e amiga MPD26 eheh, que tantas alegrias me tem dado.

HHW: O teu acto de produzir complementa a tua escrita, ou são dois processos de inspiração separados?
Kap: Eu diria que são processos separados simplesmente por não produzir para escrever. Eu não produzo a pensar em escrever, produzo a pensar em produzir. Produzir para mim é um mundo completamente à parte, é uma ocupação só por si. Mas claro que se complementam, porque o facto de produzir para mim faz com que seja mais "fácil" desenvolver um estilo e sonoridade próprios. 

HHW: És o responsável pela gravação e mistura dos teus sons, certo? Como aprendeste todos estes passos de produção?
Kap: Aprendi por mera necessidade e estou ainda no início de um longo processo de aprendizagem, mas é algo que faço com prazer e não tenho muita dificuldade a aprender e a evoluir, talvez porque tive muitos anos de formação musical e de guitarra clássica quando era mais novo e desenvolve-se alguma sensibilidade de ouvido. Tal como na produção, essa instrução que tive em mais novo é algo que me incentiva e que dá algumas vantagens em relação a outro pessoal que não teve essa sorte.

HHW: E o álbum novo? Para quando planeias lança-lo?
Kap: A ideia de fazer o 1º longa-duração veio quando parei para pensar depois deste último EP, e senti que fazer outro EP não me ia fazer sentir realizado, então aos poucos fui percebendo que o desafio que eu quero enfrentar é mesmo o primeiro álbum. Como toda a gente sabe as estimativas a longo prazo nunca correm bem eheh, mas uma das metas que eu queria atingir era lançá-lo ainda com 19 anos, por motivos simbólicos, por isso a estimativa é antes de Setembro de 2015.

HHW: Vão haver produtores e MC's a colaborar contigo neste projecto?
Kap: Apesar de nos três projectos que já lancei, que são sensivelmente 30 faixas, só ter tido uma participação, no álbum vou certamente colaborar com alguns mc's e até quem sabe algumas vozes femininas. Em termos de produtores não, o álbum vai ser todo produzido por mim, do primeiro bombo à última tarola eheh.

HHW: Ouvi também falar de uma EP com o Realista, confirmas? Podes-me revelar mais ideias e detalhes que envolvem este projecto?
Kap: Confirmo sim senhor, com muito orgulho eheh. Apesar de ainda não termos nada concretizado em termos musicais e estarmos agora a escolher beats para a cena, tanto ele como eu já consideramos o EP 40% feito, porque vai ser um projecto conceptual, com um conceito principal e vários aparentemente paralelos, e isso já está tudo praticamente definido. Posso ainda revelar que as produções vão ser divididas de uma forma equitativa entre mim e ele.

HHW: E que mais projectos te esperam ou ambicionas ter/participar?
Kap: Espera-me a produção a meias com o Realista (mais uma vez) do EP do Bomer, MC que já anda por aí à uma data de anos mas que lançou a primeira mixtape em Fevereiro, projecto que eu gravei e misturei. Também já tenho um álbum de beats planeado quase da cabeça aos pés mas que não tenho tido tempo para o fazer, e é um projecto que se mantiver as ideias principais requer alguma dedicação, mas vou fazê-lo, mais cedo ou mais tarde.

HHW: Como musico que contributo queres dar ao Rap Tuga?
Kap: Eu quero conseguir fazer a minha parte para eliminar alguns preconceitos muito enraizados no Rap português que no meu ponto de vista nos impedem de evoluir enquanto movimento. E claro, quero mostrar ás pessoas as coisas que eu tenho pra dizer, os pensamentos e teorias que eu desenvolvo que acho que valem a pena serem ouvidos e que me definem enquanto um ser "pensante".

HHW: No teu ver, quantas vertentes compõem o Hip-Hop? 
Kap: Na minha opinião tem 5. O Mcing, Djing, o Break, o Graff e o Beatmaking. Eu acho que o beatbox não está "presente o suficiente" para ser considerado uma vertente, e por outro lado o Beatmaking é e sempre foi indispensável para o Rap. 

HHW: Que poderia ser feito para desenvolver o hip-hop na tua cidade?
Kap: No que toca a Gaia, e ao Porto em geral, acho que falta interesse por parte das gerações mais velhas em descobrir e apoiar os miúdos mais novos. Sei que isto que vou dizer pode "magoar" algumas pessoas, mas só magoa se não perceberem. O hip-hop português não vai viver para sempre de Dealema, Mind da Gap, Sam the Kid, Barrako 27 etc. Não desvalorizo de forma alguma o trabalho destes "mestres", e acho que quem o fizer não está de forma alguma com a cabeça no sítio, mas basta olhar para a história do Rap nos EUA para ver que os pioneiros de lá eram gajos que o Pac e o BIG ouviam quando eram putos e que agora muita gente não conhece, ou seja, no meu ponto de vista o hip-hop em Portugal ainda é muito recente e ainda vai dar muitas voltas, ainda vai aparecer muita gente a seguir a nós. Nos últimos anos já muitos nomes mais novos/recentes se têm juntado à "primeira liga", e tem tendência a aumentar, mas não acho que seja por interesse do pessoal mais velho, e acho que enriquecia muito a cultura se isso acontecesse.  

HHW: Que recente projecto tuga despertou a tua atenção?
Kap: Eu estou por norma muito atento a tudo o que sai, gosto de conhecer nomes novos e por isso posso não me estar a lembrar de algumas cenas, mas sem dúvida GROGNation com a mixtape "Dropa Fogo". Depois de ouvir esses gajos posso dizer que durmo mais descansado eheh. São das maiores, se não a maior promessa que anda aí, e ver que anda aí pessoal com tanta cabeça como eles têm deixa-me descansado. 

HHW: Qual foi o último cd que compraste?
Kap: Virtus - Universos. É um "gamechanger", abanou as merdas e mudou algumas coisas positivamente em termos de cultura. 

HHW: Que mensagem no rap mais te marcou até hoje?
Kap: Sem dúvida um conceito marado que esteja para me aparecer na cabeça ehehe. Há várias, mas uma das que mais me deixou em estado de pura reflexão é o som do Praso, "Tanto não chega". Em termos universais, o álbum "Donuts" do J. Dilla é A mensagem. A pura demonstração da genialidade através da arte.

HHW: Para concluir, obrigado por esta entrevista e que mensagem deixas aos visitantes do HipHopWeb?
Kap: Obrigado eu pela oportunidade e a mensagem que deixo é, respeitem o estilo de música que adoram. Há artistas que perdem horas com conteúdos geniais que deixam nas músicas e que na maioria passam despercebidos porque grande parte dos ouvintes não se dá ao trabalho. O hip-hop que já foi feito tem muito sumo ainda para ser espremido. Continuem atentos e dedicados!