Entrevista com Woner

  • Imprimir

Um dia recebi um email deste rapaz chamado João a apresentar-me o álbum "A minha cabeça sai sempre cortada (Vol.II)", admito o nome suscitou-me curiosidade, e ao ouvi-lo pensei em fazer um artigo detalhando a minha visão de cada tema, a um ponto de ter tornado cada texto tão pessoal e surreal, que propus esta entrevista ao João, sendo menos louca e mais credível. Leiam esta entrevista e depois saquem o álbum dele, ou saquem o álbum e depois leiam a entrevista, como preferirem, ambas as coisas valem a pena.

HHW: Quem é o Woner?
Woner: O Woner é um gajo chamado João, que é muito alto, muito branco e muito apático, acha que tudo na vida é uma seca e consegue sempre estragar as coisas boas que lhe vão aparecendo, como o amor. Tem amigos imaginários fechados num mundo também imaginário (mundo de algodão), ataques de pânico e de estupidez. Sonha secretamente em dominar o mundo e ser deus (estilo Kira). No fundo, o gajo seria uma ameaça para toda a gente se a pistola que tem na mão não fosse também imaginária. (ok, agora vou começar a falar na primeira pessoa)

HHW: Lançaste agora o teu, como tem sido o feedback?
Woner: Há pessoas que gostam e pessoas que não gostam. Curiosamente, tenho recebido “muito” apoio de pessoas fora do rap, o pessoal da “cultura” não parece gostar muito do meu trabalho. Mesmo a nível de sites/ blogs, o meu álbum não foi partilhado em quase nenhum site de hip hop, por outro lado foi partilhado em praticamente todos os sites de música indie com os quais falei.

HHW: Os conteúdos exploram temas como o suicídio e a depressão,resumindo abordas com um teor intimista várias fraquezas do ser humano, o que te cativa nestes temas?
Woner: Não posso dizer que me cativam... Eu escrevo o que sinto e crio historinhas à volta para mascarar as minhas fraquezas. Não penso um único segundo em falar da depressão do mundo, eu tenho a minha, e não a sinto de forma plural. Conviver com uma depressão crónica não é uma coisa boa, portanto, embora haja um certo charme nela, não gosto de escrever sobre ela, mas como escrevo acabo por odiar tudo o que sinto e faço (embora tenha confiança e consciência de que tenho um trabalho bom). Isto é paradoxal porque também não quero viver sem ela...mas quero...mas não quero...

HHW: Também é um trabalho construído de uma forma linear, a ordem com que ouves as faixas faz toda a diferença, podes explicar o porquê?
Woner: Gosto de filmes, gosto de criar histórias na cabeça. Este álbum tem uma narrativa da primeira faixa à última. É para ser ouvido da mesma forma que se vê um filme.Só faz sentido assim. Claro que sei que as pessoas não ouvem música desta forma, mas eu só me sinto bem a fazer música com este tipo pormenores. Está tudo cheio de elementos “escondidos”... Porquê dizer “Olá o meu nome é Darko” quando me chamo João? Porquê Lápis de Niizuma, porquê o Edgar Allan Poe na capa, as coisas escritas no fundo da capa, o dia 11 de Setembro, o que é 28 06 42 12? A voz que aparece no final da última faixa... Está tudo ligado ao que vai acontecer no volume 3.
Normalmente, os álbuns são aglomerados de faixas, cortam-se as menos boas e fica o trabalho feito. No meu caso não, eu tenho que manter as músicas que considero menos boas para que a história faça sentido. Por exemplo, recebi algumas queixas sobre a faixa “O Bebé Levou Um Tiro”, dizem que é uma faixa insensível que não dá nada ao álbum. Se as pessoas prestarem atenção percebem que na música estou a falar com o psiquiatra sobre pensamentos que tenho e não controlo, ou seja, pensamentos intrusivos, e isso interessa para que a história faça sentido. Cada música traz uma informação nova para a história global.

HHW: Escolheste o dia 11 de Setembro para o lançamento, o que te fez inclinares-te para esse dia?
Woner: Está relacionado com a narrativa. Como disse, gosto muito de filmes, e toda a trilogia da cabeça cortada é baseada em alguns. Um deles influencia a narrativa o meu trabalho de forma mais notória. Esse filme saiu num mês próximo ao da tragédia do 11 de setembro e teve problemas por causa disso pois envolvia um “acidente” de avião. Achei que fazia sentido. Lá está, é daqueles pormenores que falei em cima, que sei que quase ninguém vai perceber mas que me fazem sentir bem.

HHW: Para trás estão mais 3 projectos a solo "A minha cabeça sai sempre cortada (Vol.I)", "Azul Bizarro" e "Varicocelo", como olhas agora para cada um destes projectos?
Woner: O Azul Bizarro não tem muito que se lhe diga. É um ep com os primeiros instrumentais que fiz no Reason (na altura em que o usava). Varicocelo não é um projecto, é uma faixa solta que lancei que vai integrar um ep chamado “A Arte de Apanhar Doenças”. Tenho ainda o ep “O Início” do meu grupo (Diatribe) que saiu em 2011. 
O “A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada (Vol.1)” não saiu exactamente como eu queria. As pessoas gostaram do ep e eu fiquei feliz. Em concertos diziam que eu era poético e uma pessoa profunda, que me percebiam perfeitamente e entendiam o que eu estava a passar. Passei a odiar o meu trabalho por isso... 
Não quero que gostem de mim porque digo coisas “poéticas”... Prefiro o segundo volume porque não fui pelo lado poético da depressão... Vazio, solidão, monstros, pisaduras, cortes, vómito, sangue, corpo como estrutura imperfeita, merda... É a minha depressão, e não a de mais ninguém... Está à vista de todos que eu sou lixo, e se gostarem de mim prefiro que seja por isso.

HHW: Que procuras alcançar com o teu rap?
Woner: Viver é uma seca, a vida é uma merda, escrever dói, fazer música enerva, contudo ver a criação concluída e actuar fazem-me sentir vivo, de certa forma preenchem o vazio por uns tempos. Portanto, sou uma puta à procura de adrenalina vinda da arte que faço enquanto me balanço entre tendências suicidas e geriátricas à espera que algo me motive a não saltar. Vou tentar lançar o maior número de projectos que conseguir até as pessoas começarem a gostar de mim (ideias não me faltam), um por ano, no mínimo, se a vida me deixar. Óbvio que tocar em alguém é bom, se conseguir fazer com que o pessoal depressivo (de verdade) goste da minha música, pelo cru e não pela poética, vou-me sentir incrivelmente bem.
Pessoalmente, tenho o limite até aos 30 anos...depois disso se ainda não tiver conseguido nada na música que me faça sentir vivo...puff.

HHW: A solo, que planos tens para a tua musica?
Woner: Imensos, sou muito esquizofrénico na forma como crio. Falta lançar o terceiro e último volume da “Cabeça Cortada” (deve sair em 2015), em 2014 vou tentar lançar um álbum chamado “A Rua dos Hipotéticos” e também uma maquete com algumas faixas que ficaram de fora do “AMCSSC Vol.2”. Tenho a lançar o “A Arte de Apanhar Doenças” que já referi, um álbum chamado “Não Me Defendas, Eu Sou Um Monstro” (na pele de uma das personagens que vai aparecer no AMCSSCVol.3), um projecto de dois volumes na pele de “Alexandre Pequeno”; o álbum de Diatribe (que deve sair no próximo ano)...a lista continua, mas vou parar por aqui para não parecer tolinho.

HHW: És um dos elementos do colectivo Diatribe, como se deu a formação deste projecto e que papel desempenhas neste grupo?
Woner: Diatribe é um grupo composto por mim, pelo Neatro (lê-se neutro) e pelo Suary, contribuímos os três com voz e instrumentais. Em 2006 ou 2007 eu e o Neatro tínhamos um projecto, um ou dois anos mais tarde ele começou a fazer música com o Suary, inevitavelmente surgiu a ideia de nos juntarmos os três. O momento crucial em que passamos a ser um grupo foi em 2011. Estávamos na esplanada do Arrábida Shopping a pensar em como haveríamos de vingar no rap. Eu li-lhes uma letra que tinha escrito e propus que eles escrevessem o resto para fazermos uma música solta (que iria integrar uma mixtape do Suary). Essa música teve um feedback muito positivo e passou na Oblá fm, programa apresentado pelo Maze. Nesse momento pensamos: “se o Maze gostou da nossa música a ponto de a passar na rádio...é porque valemos alguma coisa”. Poucos meses depois saiu o nosso ep (em formato físico).

HHW: Vocês foram uma das bandas participantes no contest IDA de Bandas no Hard Club,como foi a experiência?
Woner: Foi agridoce. Foi bom para o ego sentirmos que no meio de imensos participantes fomos escolhidos para finalistas; foi mau o facto de termos perdido; foi bom o convívio entre artistas; foi mau o facto de não terem anunciado 2º e 3º lugares e oferecido os respectivos prémios, como escrito na informação; foi bom ter feedback positivo do júri, e foi muito bom pisar a sala principal do Hard Club.

HHW: Como banda quais são as aspirações e planos que têm para o futuro?
Woner: É estranho...somos gajos com ambições pessoais diferentes, partilhamos a vontade de não fazer nada e de ficar a jogar jogos horas e horas. Contudo, estamos a fazer um álbum, temos grande parte dos instrumentais escolhidos e temos participações confirmadas que nem consigo descrever o quão estupefacto me deixam. Não sei o que vamos fazer depois desse álbum... Se calhar vamos ficar a jogar Assassins Creed 4 ou Watch Dogs ou a ver Adventure Time até que faça sentido e haja motivação para fazermos outro projecto. Torna-se complicado porque temos os três trabalhos a solo a fazer.

HHW: Como vês o rap no Porto?
Woner: É rena. Há muita gente a querer fazer rap. Há meios acessíveis a todos. O resultado, para mim, é um monte de música sem originalidade. O Facebook “salva” esse pessoal, amigos espalham a amigos (por isso é que não tenho um). Soa tudo muito forçado e igual... É agoniante (é a minha opinião). Há alguns nomes fixes, destaco o Rogg e o Kap (embora façam um subgénero de rap que não é o que ouço acho que estão com um trabalho bom e sólido). Vejo algumas crews porreiras, unidas e mexidas. Há muito bons artistas cá no Porto, mas continuam a lançar músicas soltas em vez de fazerem projectos com cabeça, tronco e membros. Os ouvintes no geral só ouvem o que os amigos fazem e, claro, todo o tipo de merda que os dinossauros lhes derem, se é fixe é fixe, se é mau é fixe na mesma... 
Enfim...

HHW: Que artistas te influenciam e inspiram?
Woner: Hmm... Edgar Allan Poe, Herberto Hélder, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Van Gogh, Caravaggio, Francis Bacon, Salvador Dali, Kurt Cobain, MF DOOM (tinha de ser all caps), Manel Cruz, Micheal Larsen (R.EYE.P), Slug, Flying Lotus, a lista continua...

HHW: Que projectos do rap tuga destacas?
Woner: Deste ano destaco: “Coraçãozinho de Satã”, “Alimentar Crianças c/ Cancro da Mama”, “Sorriso Parvo”.Estou curioso pelo “Elefante Branco” (e vamos lá ver se o Nerve lança o dele este ano).

HHW: O que andas a ouvir de momento?
Woner: King Krule, James Blake, Linda Martini, está um tempo bom para ouvir Portishead, ando também a ouvir o álbum do Earl Sweatshirt, e o novo do Cage. Quando chove muito gosto de ouvir a “Chuço” do Stray.

HHW: Para concluir que mensagem deixas a todos os visitantes do HipHopWeb?
Woner: Abram os horizontes. É dito que Hip Hop é uma “cultura”, não um culto ou uma seita. Ouçam música livremente independentemente do género musical. Ouçam o que vos sabe bem. Se vos souber bem deprimir ouçam o meu álbum ahahah.
Tentem ouvir álbuns, que tenham guardados, do primeiro segundo até ao último como se fosse um filme, vão ver que, mesmo que não haja uma narrativa, vai ser uma experiência mais intensa.