Sensi em entrevista

Sensi está de volta aos discos, cinco anos depois de ter editado «E.sensi.a», a que chama o «álbum zero». Desta vez, Sensi regressa com «Pequenos Crimes entre amigos», e em vez de 40 ladrões, traz 46 amigos, entre os quais Rui Veloso, Marcelo Camelo, Manuela Azevedo, dos Clã, ou Kalú, baterista dos Xutos e Pontapés, e pai de Sensi. O resultado é um álbum de misturas, que pisca o olho a vários estilos musicais, enquanto Sensi garante que não tem medo da pop, só quer ter o seu próprio espaço, e que o ouçam. Para já, podem lê-lo:



Voltaste com o álbum «Pequenos Crimes entre amigos», que tem 46 colaborações, porquê tanta gente?
Eu fui para o estúdio de Vale de Lobos, que é um dos grandes estúdios de Portugal, e foi aí que eu pensei que era um bocadinho redutor ir só com as minhas máquinas e com um microfone ligado para um estúdio daqueles. Então como já tinha a experiência de trabalhar com banda, trabalhei um bocadinho o conceito do ‘live act’ e fazer isso em disco e convidar todo o tipo de músicos para meter o disco a soar mais «à antiga», como as «big bands».

Foram mais os músicos que trouxeram contributos para as bases de canções que tu já tinhas, ou compuseste a pensar neles?
Eu não fiz as músicas a pensar neles, eu já tinha as músicas todas feitas. Não são todas minhas, eu já tinha 50 instrumentais reunidos, tendo em conta que tinha já o instrumental do Sam The Kid, os instrumentais do Amp, que é o DJ que me acompanha, do Ruas, etc. Depois quando surgiu essa oportunidade, é que percebi onde é que eu queria que a música fosse, a ideia. As estruturas já estavam feitas, era uma questão de espaço, se era guitarra acústica, guitarra eléctrica, quem é que ia tocar, etc., e daí surgiram outros desafios, até mesmo para os convidados. Muitos deles se calhar ainda não tinham feito nada em bases rap, hip-hop, e essa coisa do desafio tornou a coisa mais apetecível para mim, até.

Conforme dizias, a maior parte dessas pessoas não vêm do hip-hop. Achas que o futuro do hip-hop passa por aí? Por essa mistura?
Acho que era arrogante da minha parte estar aqui a pôr-me nesse papel de salvador da pátria, não é isso, mas acho que o futuro do hip-hop passa por haver uma preocupação maior com a qualidade das coisas. Há ainda o estigma, para as pessoas fora do hip-hop, que as pessoas do hip-hop fazem as coisas de uma forma muito rústica. Isso tem vindo a melhorar cada vez mais, e cada vez há mais preocupação. Se formos a ver lá fora, as produções hip-hop são mega produções, e em Portugal há menos dinheiro, e se calhar menos oportunidades para o fazer, mas acho que está a ir nesse sentido. 
Aqui em Portugal, como é um meio muito pequeno, mesmo o hip-hop tem pequenos preconceitos que ainda podem ser trabalhados. O pop é visto com preconceito, em todas as áreas, não é só no hip-hop, mas em todas as áreas. Para mim, pop é chegar a mais pessoas, e nesse sentido, eu quero tocar, decidi que isto vai ser a minha profissão. Se puder dar-lhe um toque de pop para chegar a mais pessoas e dar um concerto em que as pessoas se divirtam e cantem as minhas músicas, melhor para mim.

Mas quando compões, estás a pensar nisso?
Neste disco sim. Posso dizer-te, neste disco procurei mesmo fazer raps mais curtos, refrões mais simples, para haver uma facilidade maior de as pessoas entenderem e decorarem. Melodias, uma coisa mais alegre, mais descomprometida, às vezes posso estar a falar de assuntos sérios, mas toda a música atrás torna a coisa um pouco mais leve. Tudo isso são factores, que para o ouvinte, que não é aquele ouvinte que está ali a ouvir para criticar, com atenção a tudo, essa leveza, essa simplicidade, torna a coisa mais abrangente e eclética. Estou praticamente seguro que quem não ouve hip-hop vai encontrar alguma coisa que goste neste disco.

Não temes ser afastado da comunidade hip-hop ao assumires essa atitude?
Não tenho propriamente medo disso. Eu gosto de hip-hop, e eu identifico-me com o meu disco, e com os elementos hip-hop que há no meu disco, mas não é uma coisa direcionada para o mundo do hip-hop, há de certeza artistas portugueses que fazem hip-hop puro e duro, e há espaço para tudo. Isto é uma coisa que me define um bocado, eu ouço hip-hop há muito tempo, mas não ouço só hip-hop, e como em qualquer estilo, há uma coisa que temos que ter em conta, é que somos todos músicos, e isso é que vale, é o tocarmos, sairmos de casa, podermos mostrar ao máximo de pessoas. Se quiserem chamar isso pop, aceito.

Este álbum surge cinco anos depois do E.sensi.a. O que é que mudou?
Mudou tudo. Eu gosto de chamar ao «E.sensi.a» o álbum zero, primeiro porque era muito mais novo. Já tinha tido alguns projectos, tinha participado ao vivo com Yellow W Van, e cheguei ali a uma fase em que tinha que fazer qualquer coisa, mas não sabia o quê, até teres a tua primeira coisa concretizada, nunca sabes muito bem o que estás a fazer. Isso permitiu-me, primeiro metê-lo cá fora, que foi uma experiência, ir tocar, perceber os pontos fortes e os fracos, para amadurecer os fortes e trabalhar os pontos fracos, entender os conceitos, a imagem e tudo isso que está por trás da música, e que tem ser pensado. Este disco demorou três anos a fazer, em si, e os outros dois foi para descansar, para ver concertos, porque se aprende sempre qualquer coisa, trabalhei um conceito do início ao fim para tornar as coisas coerentes. Quis que houvesse uma linha condutora do início ao fim do disco, que as pessoas consigam ouvir de longe e identificar-me. Encontrar esse espaço levou algum tempo, e se calhar se não tivesse feito o outro álbum, não tinha percebido onde é que me queria posicionar.

Continuo a dizer, como já dizia no primeiro disco, que não quero ser o número um, nem para ser melhor que ninguém, a única coisa para a qual eu trabalho, é para ter o meu espaço, e se um dia as pessoas me ouvirem ao longe e conseguirem identificar o meu som, eu vou ficar mesmo feliz.

in MYWAY

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