Capicua."O hip-hop é como fermento do padeiro, guardas o pão de ontem para o de amanhã"

"Sereia Louca", o segundo disco da rapper sai segunda-feira. Conversámos com a portuense sobre o título inesperado, entre outras coisas
Se nos permitem, o Carnaval é quando um homem quiser. Daí que o tenhamos antecipado para entender a génese destas misteriosas criaturas que continuam a servir muitos cortejos da época festiva. Não utilizámos disfarce, mas propusemo--nos desmascarar o grau de insanidade desta "Sereia Louca" (este título tem truque, tente separar o "a"), novo disco de Ana Matos Fernandes, aka Capicua, a rapper socióloga com sotaque do Norte. A brincar se fala a sério, tal como o estranho sonho responsável por tudo isto, com a tarefa de dar sucessão a "Capicua" (2012), assim como a mixtape "Capicua Goes West" (2013). Um disco duplo, com "Cabeça" e "Cauda", dez originais e seis versões acústicas de temas antigos. Isto e um bilhete para a Terra do Nunca, aquela do Peter Pan em versão gangster.

Diz que este disco nasceu porque há sereias que gostam de sapatos. Como descobriu isto?

Sonhei que tinha uma sapataria na Rua da Cedofeita, no Porto, e que cada par de sapatos tinha um chocolate como brinde, chamava-se Sereia Louca. De manhã, quando acordei, fiquei intrigada porque foi um sonho algo estranho. Depois comecei a contá-lo a toda a gente, andei quase obcecada, a pesquisar tudo sobre sereias e afins. Achei piada à ideia de dizermos coisas que não são da nossa natureza.

Esta ideia de a sereia romper as escamas e ganhar pernas humanas é então um paradoxo para outras alegorias.
Claro, essa coisa filosófica que nos faz esforçar por fazer algo que parece impossível, as sereias ganham pernas como eu faço um disco, o princípio é parecido. Isso interessa-me bastante, é um trabalho criativo exigente emocionalmente. Além disso, é algo muito pessoal, que me expõe totalmente, uma espécie de metamorfose interior.

Diz ainda que de "um sonho estranho nasce música de uma sapataria". A que soa esta música?
A sapataria representa o meu sonho, a música vem daí. Como outras vezes, um disco pode surgir da ideia mais estapafúrdia ou de uma sonoridade qualquer que ouviste. Como isso te fica a remoer... a inspiração é um lugar esquisito e aqui é uma sapataria.

O nome do disco é um trocadilho. "Sereia Louca" ou "serei a louca", qual prefere?
Escolhi o "Sereia Louca" porque acho mais bonito, parece-me esteticamente mais apelativo que "Serei a Louca". No entanto, fui a louca que se atreveu a fazer isto.

Já teve de o explicar a muita gente?
É para isso que os teasers dão jeito, poupam-nos algum trabalho. Muita gente ia perguntar que raio de nome é este e, de facto, sem a explicação não tem tanto interesse. Este nome leva a que se conte uma história e todo o processo de o construir.

Uma das novas faixas chama-se "Síndroma Peter Pan". Como acha que seria dar um concerto de rap na Terra do Nunca?
Ia ser engraçado, sem dúvida. Li neste Verão o Peter Pan original e acho que a Disney nos mostrou uma Terra do Nunca muito mais cor-de-rosa do que ela é de facto. Lá as guerras existiam, os índios e os piratas andam à bulha, a imagem que tinha mudou um bocado. Mas na Terra do Nunca tudo pode acontecer. Essa imprevisibilidade dá sempre uma grande pica para estar em palco.

Este disco tem dois volumes, cabeça e cauda. No primeiro tem dez novos temas, no segundo tem seis temas antigos trabalhados acusticamente.
O hip-hop ensinou-me aquilo a que chamamos auto-superação. Queria continuar a ganhar pernas e melhorar. A nível conceptual as sereias têm duas partes e concretizam essa ideia, de carne e peixe, terra e mar, cabeça e cauda. Senti uma espécie de cobrança das pessoas que queriam ter essas versões acústicas que iam ouvindo em várias plataformas e então fiquei com vontade de as gravar, para imortalizar um bocado a coisa. Mas também tinha de incluir o rap mais tradicional, foi aí que apareceram as outras dez faixas.

Rodeou-se de muita gente para fazer este disco. Os trabalhos de grupo, por norma, geram problemas. Foi o caso?
Nada disso. Demorei cerca de um ano e foi um processo bastante saudável. Começo sempre por procurar os beats, escrevo e o D-One, meu DJ e produtor, faz os arranjos para adaptar aquela base - loop, 16 barras, refrão, 16 barras, bridge, refrão - para uma estrutura que seja coerente com a minha música, porque é pouco provável que alguém, que não tu, tenha feito o instrumental certo para uma ideia tua. Depois há ainda aqueles pormenores de ver que falta um baixo aqui ou um sample ali. Acaba por ser um trabalho colectivo. Felizmente não sou auto-suficiente, isso seria uma seca.

Estes samples de que fala são recorrentes na sua produção. É uma marca de que não abdica?
Sim, apesar de muitas vezes ser ilegal (risos), mas por acaso desta vez já pedimos algumas autorizações. É uma das coisas de que mais gosto no hip-hop, é como o fermento do padeiro, guardas um bocado do pão de ontem para fazeres o de amanhã. É isso que nós fazemos, ir recortando as coisas que nos inspiram, que nos fazem escrever uma letra. É uma espécie de tempero das faixas, o sal e a pimenta.

"As sereias, porém, têm uma arma ainda mais terrível que o seu canto: o seu silêncio", é uma frase de Kafka neste "Sereia Louca". É uma pessoa muito faladora?
Sim, já deves ter reparado (risos). Essa foi uma das primeiras frases que encontrei quando andava feita louca a ler tudo sobre sereias e o Kafka tem esse poder de intrigar as pessoas, de não nos deixar entender onde quer chegar. Mas esta frase específica marcou-me muito, acho que é muito pior quando nos calamos do que quando praguejamos, quando fico sem palavras...

Pode surgir uma erupção, é isso?
Nem por isso, não sou propriamente muito agressiva. Grito mais do que outra coisa, cão que ladra não morde. Mas, por exemplo, quando o silêncio me retirar a vontade de escrever é porque alguma coisa não está bem. É aí que concordo com Kafka, pior que o canto das sereias é quando estas estão caladas.

Estudou Sociologia e fez um doutoramento em Geografia. Parece-lhe que a formação académica, cada vez mais comum entre rappers portugueses, é um instrumento essencial?
Nunca fez mal a ninguém estudar, querer cultivar-se e nem que seja pelo vocabulário é mais matéria-prima. Mas também é lógico que há muito bons rappers que nem a escolaridade obrigatória têm e que são muito engenhosos com as palavras, com muito para dizer ao mundo. Não acho que seja uma condição, mas nunca é de mais.

É um dos casos raros de sucesso de rap feminino em Portugal. Sabe dizer porquê?
O problema essencial não está no rap, está na nossa cultura. Não socializámos as mulheres para serem competitivas, para conquistarem o espaço público, para serem desbocadas, essa coisa que o rap exige que é ter o coração ao pé da boca. Ora no rap isso manifesta-se, é um meio algo fechado, as críticas são ferozes. É preciso pegares no microfone sem medos, as mulheres não foram muito estimuladas para o fazer.

Parece-lhe que o tempo trará mais "Capicuas" ao panorama do hip-hop português?
Penso que tudo tem tendência a evoluir, da mesma forma que há 15 anos o número de MC era muito reduzido e hoje há uma enormidade deles. Mas a mulher cada vez mais tem essa visibilidade e vontade de dar um passo em frente. Não serão "capicuas" como disseste, terão nome próprio.

Do primeiro disco, "Capicua", em 2012, para este muita coisa mudou?
A experiência do primeiro disco foi uma saga, foi bastante sofrido, ainda estamos à volta do método, a afinar o motor.

Quase como ter o primeiro filho.
Não sou mãe, mas imagino que sim, porque depois do primeiro disco percebi que tinha encontrado a minha forma, de gravação, de escrita, todo o processo de lapidação do disco. Foi como pô-lo nas lojas e aí sim, perceber que era nessa altura que estava pronta para o fazer.

Li na sua biografia que descobriu o hip-hop aos 15 anos, através dos graffiti. Ainda pinta regularmente?
Não, já me deixei disso há muitos anos. A minha crew era toda do Porto. Quando vim estudar para Lisboa para a faculdade não tinha ninguém aqui que tivesse essa paixão. Quando regressava ao Porto durante o fim-de-semana tinha tanta coisa para fazer que não dava. Além disso, para pintares tens de ter uma grande intimidade com a cidade, conhecer as paredes, os horários, as rotinas, coisa que não tinha com Lisboa. E o graffiti é como o rap, se não és militante não avanças, andas para trás.

Vai andar com essa gente toda atrelada a promover o disco?
É um bocado difícil, o concerto-base sou eu, a M7 e o D-One. Gostava de trazer os convidados todos, mas não vou andar do género circo, com vários camiões e hipopótamos, ilusionistas e assim. Na Terra do Nunca íamos todos, era uma festa, eu até ia vestida de Sininho (risos).

in Jornal I

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