Como peixe na água, a sereia Capicua dá um dos melhores concertos do Super Bock Super Rock

Ainda só vamos na segunda noite de festival, mas já é seguro escrever que o concerto de Capicua no Palco Antena 3 foi um dos momentos mais altos desta edição do Super Bock Super Rock. Esta noite, tudo correu bem à rapper da Cidade Invicta: a chuva (e também o adiamento do concerto dos Sleigh Bells) fizeram com que muitos procurassem abrigo na tenda, mas o grande mérito é mesmo de Ana, "Ana quê? Só Ana", como se apresenta no irresistível single com que fechou a noite, "Vayorken".

Ode à infância e à sua paixão pelo hip-hop, um dos temas mais brilhantes do seu segundo álbum, "Vayorken" é celebratória e divertida, mas da pena da MC nortenha, acompanhada pela rapper M7 e pelo DJ D-One, sai uma grande variedade de registos, da contestação social à crítica política, passando pela crónica castiça ou o registo intimista, tão bem explorado em "Casa do Campo", tema que, estamos certos, tem levado muitos a descobrir a música de Capicua.

"Acho que hoje vou lacrimejar", avisa Ana logo após a  bem recebida interpretação de "Sereia Louca", a canção, e antes de anunciar que este é um disco sobre as mulheres: não necessariamente "as bonitinhas mas também as que têm mau feitio e olheiras, borbulhas e estrias e celulite!". O manifesto recolhe a aprovação das espectadoras, mas também vemos muitos rapazes a aderir à prosa eloquente, concisa e criativa de Capicua.

Recitando os temas a cappella, como nas brilhantes "Alfazema" ou "Jugular", versando "os anos de colonialismo patriarcal" em "A Mulher do Cacilheiro" (possivelmente a melhor letra em Português que ouvimos nos últimos anos) ou fazendo soar todos os alarmes de actualidade em "Medo do Medo" e "Pedras da Calçada", Ana agita, prega e, pelo caminho, comove.

Emocionada pelo calor humano com que é recebida, e que subitamente instala um verão inesperado na tenda protegida da chuva, Capicua leva Elis Regina e Zeca Afonso ao povo festivaleiro, passando igualmente pelas divertidas canções do início de carreira (antes, portanto, da estreia homónima) e ainda cita o herói Sérgio Godinho, dedicando à sua filha aniversariante Jwana, da Música no Coração, o hino que já é "Vayorken". 

"Quando vi tanta gente pensei se seria para me verem ou para se abrigarem da chuva", confessou Ana a certa altura. Mesmo os que fugiram do mau tempo, quer-nos parecer, terão ficado fãs de Ana quê?, só Ana. E o mérito é todo dela.

in Blitz

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