Bling Projekt x Beware Jack

Na ante-câmara do lançamento do LP A Memória de Futuro, DJ X-Acto e o rapper Beware Jack falam do álbum que ambiciona “ser mais que hip-hop”.
Estação do Rossio, 16 horas. Um céu cinzento pendura-se sobre Lisboa, mas nem por isso adormece a cidade. Há um vaivém de turistas que calcorreiam praças e ruelas. Incessantes assadores de castanhas lançam névoas que se esbatem nas fachadas à boca dos Restauradores. E o Castelo de S. Jorge, imponente lá no alto, confere uma tela colorida, mística, ao cenário. Esta é uma descrição possível sobre a vida na capital num Domingo. Outra é aquela que Beware Jack traça, assim que nos sentamos no Starbucks. “Isto é Lisboa mestiça, em movimento, com barulho e uma luminosidade própria, uma das minhas cidades preferidas”.

Lisboa serve para quebrar o gelo porque na faixa “Elle X (Lisboa Brilha)”, que integra A Memória de Futuro, álbum colaborativo entre Bling Projekt e Beware Jack, o rapper corteja a cidade com uma carta que, segundo ele, não se repetirá. Na mesma linha de pensamento, tanto ele como DJ X-Acto, um dos mentores dos Bling, a par do baixista Avishay Back (ausente da entrevista por se encontrar em Israel), concordam que nunca mais farão nada igual a este disco. Simplesmente porque, na vida, nada é imutável.

A Memória de Futuro, LP a ser lançado dia 10, entrelaça o experimentalismo electrónico com o groove do hip-hop, jazz e soul na fotografia de uma época na vida dos elementos que lhe dão corpo. Entre cafés e lattes, emcee e deejay contam como este trabalho se estende para lá dos limites do hip-hop – “é live music” – e exploram as virtudes da fusão de influências entre os membros que compõem o projecto.

Que “Memória de Futuro” é esta?
Beware Jack: É todo este processo em que foi feito o álbum, uma redescoberta musical, no meu ponto de vista. Nunca tinha tido oportunidade de trabalhar com banda e eles ofereceram-me coisas muito boas. Depois também foi um período diferente na minha vida. Fui pai na altura e o mindset muda involuntariamente. E aMemória de Futuro é tudo isto, um álbum que daqui a dez anos vamos ouvir com boas recordações dos momentos que passámos.

Como e por que razão surgiu este álbum e, já agora, a colaboração?
X-Acto: Inicialmente, os Bling Projekt começaram com a vinda do Avishay [Back] para Portugal, porque a namorada dele era portuguesa. Na altura, ele andou no MySpace à procura de um DJ e descobriu-me. Conhecemo-nos num concerto dos Groove 4tet, banda de funk que já tinha ouvido, mas não os conhecia pessoalmente. Nesse concerto, falámos todos em fazer qualquer coisa juntos. Foi daí que veio o [guitarrista] Fred Martinho, que depois nos aconselhou o baterista António [V. Dias] e, a partir daí, começámos a evoluir. O primeiro emcee foi o Biru e depois também começámos a trabalhar com o Sir Scratch, Kilú e Magistrado. Havia uma faixa do Magistrado em que entrou a Ingrid Fortez, que conhecia o Beware e que o apresentou ao Avishay. Na altura, o Magistrado tinha sido pai e tinha pouca disponibilidade, então começámos a procurar um novo frontman. Quanto ao “Memória de Futuro”, por mim, já tinha saído há mais tempo. Mas sabes como é, há formalidades, atrasos, datas…

BJ: …É um processo longo que às vezes nos escapa das mãos. Mas conseguimos sempre agarrá-lo para que continue a ter a importância que merece, para que continue a viver o presente. Nós ainda estamos no presente do álbum, não falamos dele nem como passado nem futuro, é uma peça que se está a deslocar. E surgiu quando nos foi possível, quando reunimos todas as condições. Hoje em dia, um álbum já não é só som, tem que haver todo um conceito por detrás e explorar a imagem também é importante. Estamos agora capazes de lançar o álbum.

Trata-se dum registo do passado e presente de cada um de vós. Como é que foi conjugar as experiências e influências de cada um?
BJ: Para mim foi muito fácil. Basicamente, temos o mesmo genoma musical. Gostamos de ouvir rap, soul, anda tudo à volta do mesmo. As nossas bases acabam por ser as mesmas. Se bem que o X-Acto também gosta muito de música electrónica e, a espaços, isso sente-se no álbum. Mas, no fundo, gostamos e identificamo-nos com esse estilo musical, com esse tipo de hip-hop. O hip-hop é vasto, nós gostamos de uma coisa mais soulful, mais groove.
X: A palavra “difícil” [de conjugar as influências de cada um] não é a mais adequada. Gosto de coisas que sejam desafiantes. Antigamente, detestava disco music e uma das minhas faixas favoritas no disco é a “Motown no Beat”, que anda ali no disco. As pessoas aprendem umas com as outras a descobrir coisas novas e às vezes a tirar certas teimas. A redescobrir. Por exemplo, não sei definir que tipo de música é o o single “Crime, Disse Ela” [com Da Chick]. Parece-me um R&B futurista. Aquilo é electrónico, mas, ao mesmo tempo, também não o é.

É um documento para o futuro porque o tempo tudo transformará na vossa perspectiva musical?
BJ: Duas coisas iguais não vamos fazer. Primeiro porque não estamos interessados. Segundo porque gostamos de desafios. Aproveitando a deixa do X-Acto, o single cresce um bocadinho por aí, porque foi dos últimos temas a serem criados e daí a diferença relativamente a grande parte do disco. Já tínhamos abordado, a nível musical, o que queríamos abordar, então criou-se uma faixa com um carisma diferente. Hoje em dia diz-se muito “fresh”. Okay, pode ser isso, a nível de sonoridade, de leveza, do desafio da mensagem.
X: O próprio projecto é suposto ser fresh. Desde que o Avshay veio para cá que o objectivo é esse. Queria fazer uma cena diferente, com banda. Na altura, eu já tinha projectos, mas foi mesmo aquele convite que fez sentido. Era ali que eu queria expandir as minhas ferramentas, não só como DJ, mas em teclas, pads, efeitos. Foi este projecto que me fez puxar pela criatividade, não só ao vivo, mas a nível de produção.

Há uma orgânica entre a electrónica e um hip-hop que recupera as raízes do género: soul, funk e jazz. Por que escolheram o tom mais groovy do hip-hop?
X: Foi mesmo por ser aquilo com que nos identificamos. Não foi porque haja muita música electrónica por aí ou porque pensámos, ‘ah vamos buscar aquele estilo’. É o que a gente sente. Tem que ver com as nossas influências e o que ambicionávamos chegar perto, tendo como referências referências Jazz Liberatorz, C2C, que para mim foram o melhor concerto deste ano [no Super Bock Super Rock].

BJ: Tem a carga que nós gostamos. Há influências como The Sound Providers, Jazzmatazz, J Dilla. Por momentos tem muita dureza a nível de batidas de Nova Iorque dos anos 90 e linhas de baixo que vão buscar muito a esses anos e a dois mil e tal. Tem uma base profunda. Ou seja, se pudéssemos ver a coisa num gráfico, este tendia a estar em baixo. Tem um tom profundo, tem nervo, é um álbum feito de nervo.

Os projectos portugueses de hip-hop com banda estão a reaparecer?
X: Talvez por estar dentro do meio, parece-me que estão a surgir novos projectos com banda. As coisas andam sempre em círculo, tudo passa por um ciclo. Imagina que nos convidam para dar um concerto e não há hipótese de ser com banda. Muito provavelmente, isso não vai acontecer. Tem de ser com banda. Não vou dizer que não, porque os sons existem. Se eu quiser, pego neles e exporto-os, mas não é isso que queremos.
BJ: Concordo com o X-Acto. Por ter conhecimento do meio, vejo que cada vez mais emcees com um conjunto de músicos a acompanhar os seus espectáculos. Já tenho as minhas dúvidas se as coisas são desenhadas naturalmente para tal. Talvez seja porque estes querem experimentar ou porque querem entrar nessa fase neste momento. No nosso caso, isto foi desenhado a pensar nisso.

Que cenário traçam do hip-hop português?
BJ: Está a crescer, com as suas virtudes e o seus defeitos, mas está a crescer. E fico feliz por isso. Também tenho a minha justificação: esta nova geração que consome hip-hop, leva com hip-hop a toda a hora, nas rádios e na televisão. O nosso gosto por hip-hop é quase de investimento intelectual, porque na nossa época não era fácil consumirmos hip-hop dessa forma. Hoje não se consome um grupo durante um mês, são dez grupos num dia. Há sede de informação, logo, o conhecimento é diferente. Mas o género está a evoluir.
X: Dando um exemplo concreto, o próprio Sam The Kid, que é mais old school, está a apostar nos novos talentos. Um exemplo disso é o pessoal como os GROGNation e outros emcees que ele próprio convida para irem a casa dele para mostrarem aquilo que têm. E, muito provavelmente, saem dali colaborações. Ele não está naquele pedestal de intocável que já fez a cena dele. Ele está a fazer a ponte para não haver um generation gap, e isso é fixe.

Mas é cada vez mais raro surgir um objecto de culto…
BJ: Sim. Para já, porque tens o triplo da competição que tinhas há 10/15 anos atrás. Os meios estão mais acessíveis. Hoje em dia, qualquer pessoa consegue fazer uma maquete em casa com uma qualidade bastante aceitável. Tão aceitável que as pessoas nem consideram que foi feito num quarto. Depois tens de ter outros argumentos. Já não basta ter o som num formato mp3 ou wav. Já tens de enriquecer o teu livro musical, com uma imagem mais pensada e estruturada para a mensagem ser bem propagada.

Que impacto pretendem ter com “Memória de Futuro”?
X: A nível lírico, acho que é um álbum profundo. Não é aquele tipo de rimas soltas só por soltar. Se as pessoas ouvirem isto e estiverem mesmo a prestar atenção, acho que vão descobrir aqui um emcee com letras grandes. A nível musical, procuramos dar a conhecer, não só os músicos, como a musicalidade de um projecto que ambiciona ser um bocadinho mais do que hip-hop. A base é o hip-hop, mas isto é música. E dá a conhecer a vertente do hip-hop através de um emcee, mas também outros estilos, outros géneros. É live music.

A mensagem deste álbum aborda as preocupações diárias de todos nós: o amor, a liberdade, as questões sociais. Era objectivo criar um disco em que o público se visse reflectido na mensagem?
BJ: Isto é um projecto que considero bastante maduro. Se queres fazer uma partilha, as pessoas têm de se identificar com o que tens a partilhar. Ou não, não há aqui propriamente uma ordem lógica nisto. Mas sim, a fase das nossas vidas também exige isso. Não estamos a passar por um período fácil em que anda toda a gente a rir e cheia de oportunidades. A própria musicalidade da banda levou-me a desenhar esse tipo de rimas, e nem sou muito de abordar problemas sociais. O disco é um ser superior face às condições actuais (risos). É essa a sua ambição e pretensão. Face à vida, seja música, contas para pagar ao fim do mês, pessoas no teu emprego que te tratam mal, desrespeitos a nível musical. É o ouro e o podre da vida.

Derivado do teu lirismo metafórico e introspectivo, a mensagem é mais de reflexão e menos de digestão directa…
BJ: Tenho muitas entrelinhas. Quando começo a desenhar uma rima, não fico contente com o que me aparece. Quero que tenha um significado, que tenhas de pensar para ires buscá-la. Talvez nunca a vás buscar porque são coisas da minha cabeça, mas há pormenores que vais apanhando à medida que vais ouvindo. O mesmo acontece com as batidas, com os instrumentais, é tudo um pouco mais complexo que o habitual.

O que trouxeste de novo na tua mensagem para este projecto, face aos teus discos anteriores?
BJ: Estou muito mais biográfico, porque sempre fui um bocadinho de viajar. Não gosto muito de abordar o óbvio, gosto de fazer a minha história e, às vezes, dentro daquela história, está uma crítica social, mas nunca directa. Hoje em dia sou mais prático, estou mais crescido. Um projecto nunca se pode comparar, mas pegando nisso, o meu presente é com Bling e o “Memória de Futuro”. A química e orgânica deles levou-me imediatamente para esses patamares.

Vocês têm em comum um espírito do it yourself. Isso reflecte-se pelo álbum ser de edição própria. O que vos mantém motivados a lançar música pelas próprias mãos?
X: Nós ainda batemos a algumas portas, mas apesar de gostarem, parece-me que já era tarde, talvez porque já tinham fechado o plano deles para este ano. Mas nós queríamos lançar agora. Apesar de ser um registo de memória de futuro, isto faz-nos sentido agora, por isso fizemos pelos nossos próprios meios. Não foi porque não deu para lançar a partir de outras plataformas que parámos. E nós temos os pés assentes na terra, isto não é um álbum comercial. A cena de estar numa grande editora não era fulcral para este projecto em específico. A musicalidade não é comercial, não é suposto ser catchy ou bonita. É o que é.
BJ: A motivação para lançar agora o disco era maior, sem sombra de dúvidas. Isto porque, na nossa cabeça, à semelhança de todas as pessoas, vivemos de fases. Este álbum foi trabalhado sobre uma fase das nossas vidas e talvez daqui a um ano já não fizesse tanto sentido lançá-lo. Agora está quente nas nossa cabeça.

Numa era em que saem milhares de sons de hip-hop para a internet, como é que procuram distinguir-se no meio desta teia musical?
X: Para mim é simples: adoro música e sempre que posso vou a concertos. Mesmo que conheça mal, há certos sítios que sei que têm certos tipos de música ou músicos que, à partida, serão interessante. É aí que vou beber influências. E sou curioso. Mesmo que haja um instrumento que não toco, gosto de saber porque é os artistas tocam assim. Ou porque é que usam aquilo ou porque é que fizeram este som e não outro. Tudo isso me influencia. É aí que está a piada, não ter de haver uma fórmula para fazer as coisas. Cada um faz à sua maneira. Estamos a tocar com músicos de gabarito que são nossos amigos e todos nos entrosamos, opinamos e seguimos um caminho. Não tem de haver um formato que funciona para todos. Se eu não saísse tanto, a minha musicalidade seria outra, não necessariamente má ou pior. Cada um tem a sua liberdade para fazer as coisas como quer.
BJ: Como o meu som é com palavras, sou muito caseiro. Mais que o X-Acto. Estou sempre em casa, mas sempre a escrever. Então tenho um conhecimento muito profundo da minha escrita e do meu flow e estudo isso ao pormenor. Creio que evoluo muito sozinho. E até posso não ter muitos projectos, mas tenho muita música feita em casa. Estou sempre a melhorar uma rima ou uma letra, passam sempre por milhares de fases. A minha evolução é um bocadinho à minha custa.

Que projectos têm agendado para o futuro próximo?
BJ: Tenho um álbum que não digo que está tecnicamente fechado, mas já quase a terminar. Depois tenho outro álbum a 70-80% com o Blasph, inteiramente produzido pelo Kilú, que também está a bom ritmo e que em 2015 certamente verá a luz do dia. Também me surgiu um convite do Sam [The Kid] e estou a começar a arranhar qualquer coisa com ele, mas ainda vai levar tempo.
X: Para já, temos o lançamento do álbum dia 10 e a apresentação do mesmo no Clube Ferroviário dia 15. Também estão a surgir convites. Em Dezembro devemos ir ao Algarve e queríamos ir às FNACs que ficam longe de Lisboa.

Memória de Futuro encontra-se nas lojas dia 10 de Novembro. A apresentação oficial é dia 15 no Clube Ferroviário, Lisboa, e conta com a presença de Da Chick, Sam The Kid, Vinil, Lancelot e Nel Assassin.

in Punch

Partilhar
Google+