Tribruto em Entrevista

Kristóman, G.I. Joe e Realpunch formam os Tribruto, um coletivo de hip hop oriundo do Algarve que se estreou em 2010 com o álbum “Algazarra”, de onde é possível retirar o orelhudo “Money Come to You”. Quatro anos depois, intercalados por uma mixtape e alguns projetos a solo, os Tribruto voltam aos escaparates com “Chavascal”, um álbum que, segundo os próprios, segue as passadas do anterior e traduz a maturidade que os três elementos alcançaram no intervalo que os separa de “Algazarra”. O Palco Principal esteve à conversa com o trio em Lisboa, um dia depois de terem subido ao palco do Lux. Falámos do novo álbum e das participações especiais que o integram, da dificuldade que os artistas do sul têm para vingar na música e dos atritos que o estilo de rima dos Tribruto já provocou no seio do hip hop. Tudo isto polvilhado pela boa disposição dos elementos do coletivo.

 

Palco Principal - Falem-me um pouco sobre o vosso novo álbum...
G.I. Joe - Este álbum vem no seguimento do anterior. A ideia é continuar a afirmar este tipo de expressões um pouco características do Algarve e refletir, também, a nossa atitude.

PP - Sentem que é um trabalho mais maduro, relativamente ao anterior?
RealPunch – Sem dúvida.
Kristóman – Mais maduro porque, entre os nossos álbuns, lançámos uma mixtape e projetos a solo, o que nos levou a ganhar mais experiência a nível de rima, flow, métrica. É claro que isso acaba por se refletir nesta nova etapa.
RP – Nós estamos a falar de um intervalo de quatro anos, ou seja, houve muita coisa que mudou, a nível pessoal e musical. Sentimos que o “Chavascal”, a nível de sonoridade e de letras, está muito mais maduro.
GJ – E traz, principalmente, toda a bagagem que apanhámos na estrada...

PP - Fiquei com a sensação que este álbum é menos agitado do que o anterior. Estou certo nesta apreciação, ou completamente errado?
K – Estás completamente errado (risos).
GJ – Realmente, agora estou aqui a pensar, e as faixas a que tiveste acesso são das mais calmas.... Mas eram aquelas que já tínhamos terminado por completo, as outras ainda estavam por acabar. De qualquer forma, é um álbum que tem muita coisa diferente, tem tudo o que nos apeteceu fazer, não há qualquer tipo de filtro. A ideia é ter de tudo um pouco e, principalmente, funcionar bem ao vivo. Com este disco optámos por ir revelando as coisas aos poucos, aproveitando, também, todo um jogo de imagem e marketing até ao lançamento. A ideia é arrancar logo com concertos e apresentações.
K – Temos uma pessoa muito importante neste processo, que é o Samuel Simões. Toda esta estratégia de marketing está a ser pensada e agilizada por ele....
RP – Ele às vezes ajuda-nos para nós não nos desviarmos do foco.

PP - Ele já tinha colaborado convosco anteriormente?
GJ – Ele já tinha trabalhado, a nível de vídeo, no “Algazarra”. O Samuel é amigo meu de longa data, já trabalha comigo há muitos anos e fez todo o sentido envolvê-lo nos Tribruto. Na altura, fez o vídeo de “Granda Moca Meu” e participou em “Comes e Calas”. Não pensámos duas vezes na hora de lhe entregar a gestão de imagem de “Chavascal”.

PP - Calculo que os instrumentais sejam todos teus, certo?
GJ - A produção é toda minha, exceto na faixa com MGDRV, que foi dividida a meias com o Apache. A parceria só fazia sentido se assim fosse.
K – O Ride quis entrar, mas nós não deixámos, não havia espaço para ele neste álbum (risos). Aliás, nem me identifico com as cenas dele.... O Ride, para mim, está ultrapassadíssimo (risos). Ainda ponderei, mas depois de ter visto o Glue a atuar há uns tempos atrás...
GJ – E o Glue disse o mesmo (risos)!
K – (risos) Eles sabem que nós estamos a brincar...

PP - Já revelaram todas as vossas participações, ou ainda há algum nome escondido na manga?
GJ – Todas, à exceção da Júlia Pinheiro...
K – Antes de mais, convém frisar que todas as participações do nosso álbum pagaram para entrar, que isso fique bem sublinhado. Cheguei mesmo a desligar o telemóvel ao Rui Unas...  O [Real]Punch é que tratou disso.
RP – E ele só conseguiu falar comigo porque me ligou em número anónimo, senão também não atendia...
GI - E tu ainda lhe quiseste mentir, a dizer que estavas sem rede, mas ele estava a jantar no mesmo restaurante que tu, umas mesas ao lado... Por isso é que não deu para fugir (risos).
K – Mas sim, já revelámos as participações todas. É pessoal de peso, que está gordo na life. Mas não os convidámos com esse intuito, essa finalidade, mas sim porque são pessoas com as quais nos identificamos.

PP - Aliás, no tema “O Amanhã de Ontem” acabas por dizer que o Sam the Kid foi uma grande influência para ti, por isso, faz todo o sentido...
K – Ele, na altura, pagou 250€ para entrar no som...
RP – Na altura, porque ainda era em euros... (risos)

PP - Confesso que, mal vi a participação, e avaliando a vossa matriz de rima, pensava que a música se ia colar mais ao vosso estilo, mas não. É mais colada ao estilo dele...
GI – A nossa ideia, neste disco, foi construir  primeiro as músicas e só depois pensar nos convidados, e por isso é que escolhemos o Sam para participar em “O Amanhã de Ontem”.
K – Foi isso. Mostrámos a música, ele curtiu, pagou e pronto.
GJ – Ficámos três ou quatro dias à espera que o dinheiro desse entrada na nossa conta...
RP – A transferência foi realizada a uma sexta-feira, ainda para mais...

PP - E podemos encontrar Capicua e Mundo em “Janelas” - uma verdadeira conexão sul-norte...
K - Ela só entra no álbum porque tínhamos de ter um rap feminino...
GJ – Falámos com todas as rappers portuguesas e a Ana foi a primeira a responder...
K - Aliás, não foi assim. Mandámos mensagem pelo Facebook, ela viu mas não respondeu logo. Só que ficou lá o visto a dizer que ela tinha lido. Fomos obrigados a confrontá-la com isso... Por isso é que respondeu...
GJ – Ainda se desculpou a dizer que não tinha tempo, mas nós dissemos que já tínhamos letra para ela.
K – Aí está um dado a realçar: todas as letras do álbum foram escritas por nós! Do Valete ao Sam. Nunca os deixaríamos participar com aquelas métricas deles... (risos)
GJ – “Janelas”, lá está, é outra das músicas do álbum que é «menos Tribruto», mas com a qual nos identificamos bastante, tanto que foi criada ainda antes, sequer, de termos a ideia das participações. Quando a acabámos, sentimos que fazia sentido convidar a Capicua, o que nos levou a convidar também o Mundo. Lançámos-lhes o desafio, num concerto no Hard Club, no Porto, e eles identificaram-se imediatamente com o tema. Por fim, falámos com o Reflect para o refrão...
RP – Porque é o gajo dos refrães. Convidámo-lo para o álbum sob essa condicionante.
K – E, se tiver videoclip, o Reflect não pode entrar... Isso seria perder views...
RP – Sim, se fizermos videoclip, a parte dele vai ser uma janela com as cortinas fechadas (gargalhada).
K – Isso era lindo. Já estou a imaginar as cortinas da janela a fecharem na parte dele (risos)...
RP – Ainda vamos pensar nisso....

PP - Qual é o single oficial?
GJ – “Três Brutos”. Por um lado, por ser uma música mais fácil de tocar em clubs, visto ser quase trap; por outro, por ir à procura de resolver um dos problemas que nos persegue quase desde o início, que é o facto de nunca ninguém entender o nosso nome. Há muita gente que ainda confunde com “tributo”, o que é normal. Portanto, esta música visa explicar que o nome da banda deriva de “três brutos”. E também porque acaba por ser a cara do nosso álbum. Ainda pensámos utilizar o tema “Chavascal” como single do álbum, mas, sendo uma música que explora um registo comum ao nosso estilo, optámos por escolher “Três Brutos” para trazer alguma novidade às pessoas.

PP - Vocês apostam muito na componente visual das vossas músicas... É assim tão importante?
RP – Isso foi um dos fatores que nos diferenciou quando lançámos o “Algazarra”: ficámos conhecidos por ser um grupo que faz muitos vídeos. E isso prende-se com o facto de sermos do Algarve. Para nós, lançar um CD ou umas músicas não é suficiente, temos que trabalhar a nossa imagem e apostar em marketing e em tudo o que nos possa ajudar a estar no mesmo patamar que músicos da capital, e mesmo do Porto. A questão da proximidade é muito importante, e os vídeos ajudam a encurtar essas distâncias.
GJ – E também porque gostamos dessa parte visual...
RP – Sim, isso acaba por ser natural nos Tribruto. 

PP - Há alguns vídeos vossos que contam com a participação de Patrício Faísca, da New Light Pictures, certo?
GJ - Sim, o nossos últimos vídeos têm contado sempre com a participação do Patrício. O mais recente, inclusive, para o tema “Três Brutos”, foi filmado pela New Light Pictures, tendo sido a pós-produção dividida entre mim e eles. Sempre que pudermos, vamos trabalhar com eles. Aliás, o vídeo de “Money Comes to You”, talvez o primeiro em que marcámos realmente a diferença, foi realizado pela New Light Pictures...
K – E facto é que, depois de “Money Comes To You” ter saído, todos os vídeos em Portugal começaram a fazer sentido.... Até à data não havia vídeos fixes no hip hop tuga... (risos)

PP - Há pouco falavam das dificuldades que um artista, sendo algarvio, tem para vingar. Têm sentido muito isso ao longo da vossa carreira?
K – Sabes quando os estrangeiros pensam que Portugal é uma província de Espanha? Nós sentimos isso em relação ao Algarve.
RP – Mas não é só connosco. Nós sabemos que o pessoal sabe que existe hip hop no Algarve, mas não tem tanta curiosidade em saber o que se faz por cá.
GJ – E também tem a ver com o facto de não estares ali à mão, de não estarmos tão acessíveis, mesmo a nível dos media. Dou-te um exemplo: esta entrevista só está a ser possível porque nós viemos a Lisboa dar um concerto. Tu, se calhar, consegues marcar uma entrevista de um dia para o outro com qualquer banda aqui da zona, por razões óbvias de proximidade. O mesmo acontece nos concertos. Nós temos um custo associado à nossa deslocação que o artista que sai aqui de casa não tem.
K – Mas eu acho que isso não é desculpa para não se apostar em bandas que estejam deslocadas...
GJ – Psicologicamente, é.
K – Pois, então o psicológico dessas pessoas tem que mudar...
GJ – Exato. E por isso é que trabalhamos três vezes, como nós costumamos dizer, mais, para conseguir ter essas oportunidades.
RP – Mas isto não te retira valor, de forma alguma. Acaba é por criar uma barreira... E há outra coisa: o rap do Algarve é visto como rap algarvio. Não é de Loulé, nem de Portimão, nem de Albufeira, é do Algarve. Ou seja, é tudo colocado no mesmo saco, não há diferenciação, muito por culpa nossa, porque nós também ajudamos a que isso aconteça.
GJ – Como há estas dificuldades para vencer, nós temos que trabalhar, ensaiar, dar mais concertos, fazer as coisas bem feitas, bem estruturas. O que é que acontece? Quando reparam em nós, as arestas já estão limadas e já temos a cena bem preparada. Já percebemos os erros. Enquanto que, se a coisa funcionasse logo, nós ainda poderíamos estar verdes.

PP - Atualmente, vocês são a grande bandeira do rap algarvio. Sentem que esse título eclipsa, de alguma forma, as restantes bandas do sul?
GJ - Isso depende. O Sacik está a ter uma projeção muito boa. Há uns anos, houve artistas com tanta ou mais projeção do que nós, mas que acabaram por ter uma queda rápida, como serve de exemplo o Twism. Nós sentimos que, se houvesse mais coisas a acontecer, acabava por impulsionar os outros. Nós tentamos fazer isso, a nível de participações e concertos. Sempre que abrimos uma porta, deixamo-la aberta para as outras bandas também terem as suas oportunidades. Mas isso já vem do princípio da Kimahera. Como temos vários estilos dentro da editora, às vezes tentamos, a partir de um estilo, dar outros a conhecer. Vou dar-te um exemplo. Entrei com o projecto Deep:Her, que partilho com Emmy Curl, no Tempo, o teatro de Portimão, um local onde nunca pensariam colocar um projeto de hip hop. No final do concerto vieram-me perguntar se eu estava interessado em levar lá mais projetos meus. É assim que vamos abrindo portas e combatendo esse tal psicológico que falávamos há pouco.
K – Mas as pessoas também têm que ter consciência, independentemente do facto de ser algarvio ou não, e perguntarem-se a si próprias: “porque é que eu não estou lá?”. Se calhar não têm skill. Se calhar há bandas que, mesmo trabalhando muito, não chegam lá por essa razão. Ou então têm skill e não têm o trabalho. E isto tem que ser uma coisa paralela. Por isso é que as atuações ao vivo contam muito. Podes escrever muito bem, ter uma boa sonoridade, mas, se chegares ao vivo e desiludires o teu público por não teres trabalhado melhor essa parte, há quem, possivelmente, já não vá pagar para te ver uma segunda vez.
RP – Hoje em dia é essencial termos cuidado com tudo aquilo que fazemos. Desde a música em si, propriamente dita, até ao videoclip e até com material ao vivo que vai parar à internet.
GJ – Exacto, porque grande parte do material que vai parar à internet tem má qualidade, foi gravado com telemóveis na plateia, e nós temos que garantir, enquanto banda, que temos sempre alguém da parte de vídeo e fotografia em todos os concertos, para assegurar que aquilo que vai parar à internet preenche os nossos requisitos mínimos de qualidade.

PP - Kristóman, no tema “O Próprio” dizes que gastaste ordenados nos Tribruto e que “o retorno nem deu pra umas calças". Continua a ser assim tão difícil viver-se do rap em Portugal?
K – Sem dúvida. E às vezes discutimos por causa disso, porque isto é um hobbie mas gostávamos que um dia pudesse vir a ser profissão, na medida em que conseguíssemos viver disto. Muitas vezes o dinheiro que ganhamos em concertos é totalmente reinvestido na banda.
GJ – E falávamos disso há pouco. O nosso valor é x. Mas temos que levar uma pessoa para fazer vídeo, outra para fazer fotografia, temos que pagar a um técnico de som. O retorno é mínimo. Às vezes damos por nós a fazer contas e chegamos à conclusão que há certas ocasiões em que pagamos para atuar. Se as contas forem bem feitas, com recibos verdes incluídos e alimentações e deslocações, chegamos a essa triste realidade. E o que muitas bandas fazem nestas situações é abdicar, por exemplo, do técnico de som, ou da pessoa de vídeo que vai gravar. Tudo bem, são opções. Mas chegas lá e o concerto que podia ter corrido bem acabou por não correr.
K – E depois há aqueles casos, e eu farto-me de repetir isso, de pessoal que conseguiu ganhar uns trocos num concerto e que pega nesse dinheiro e vai comprar umas sapatilhas.... E depois queixam-se que têm boas rimas mas não têm dinheiro para gravar um EP...

PP - O vosso estilo de rima é propício a que se criem inimizades no seio do hip hop, o vulgo beef. Já alguma vez vos aconteceu serem mal interpretados?
K – Para já, o nosso estilo de rima alicia isso. É uma estupidez haver pessoas que se ofendem com isso...
RP – Dá tema de conversa....
K – Às vezes é apenas um punchline, um trabalho métrico que fizeste em casa sem nenhum alvo em especial...
GJ – E o mais engraçado é quando não percebem o que foi dito...
RP – Muitas vezes até pode ter um alvo implícito, pode ser um episódio na tua vida. Mas tu não queres dizer nomes porque achas que não vale a pena estar a entrar por aí... O que pode levar alguém a identificar-se com a rima em si. Já me aconteceu isso, uma vez fiz um som com um rapper aqui de cima que tinha desentendimentos com outro gajo, e esse outro gajo acabou por escrever umas rimas para mim. Fez duas músicas. Eu nem respondi. As pessoas pecam por dar importância a que coisas que não têm significado nenhum. É claro que uma rima não tem um significado fechado. Não consegues explicar a toda a gente o que queres realmente dizer com aquilo, é sempre passível de diferentes interpretações.
GJ – Mas essa pica de pensarmos que vai haver alguém a interpretar mal as rimas também faz parte...
RP – Sim, claro que dá uma certa pica. Mas isto, no fundo, é demonstração de técnica, de skill. Porque nós muitas vezes estamos a criar metáforas, comparações, trocadilhos, e estamos a colocar flows que num tema normal podiam ser incomuns. É uma parte de nós, no fundo. Quem nos conhece pessoalmente, sabe que somos brincalhões, que estamos sempre a gozar.
GJ – Este tipo de rima faz um bocado de confusão a quem não nos conhece enquanto banda, pois pensam que estamos a entrar em ataques pessoais. Mas é tudo na brincadeira. Até porque, se formos ver, o termo punchline também existe na comédia, no stand-up, e é muito selvagem, de ataque direto. E esse tipo de piada funciona, porque, se não tiveres um alvo e estiveres a falar no abstrato, a coisa torna-se muito mais emocionante.
RP – Os rappers neste registo são comediantes. O objetivo é fazer as pessoas rir. Mas não é qualquer um que sabe fazer punchlines. Hoje em dia tens é mais exposição a esse estilo, muito derivado à Liga Knock Out.
K – E, sinceramente, é bom que haja este tipo de atrito, porque alimenta blogs e alimenta conversa....

PP - Mas alguma vez sentiram ambientes pesados em concerto?
K – Muitas vezes, até há uma rima que eu uso que é: “eu devo rimar para fechaduras, porque só vejo caras trancadas”. Mas eu falo por mim: gosto disso. Gosto de sentir aqueles bacanos que estão no público cheios de raiva a ver se alguma das dicas que mandamos em palco é direcionada para eles...

Manuel Rodrigues

in Palco Principal

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