Valete: 'Uma plateia multirracial só se vê num concerto de hip-hop. Mais do que num estádio de futebol'

É de um dos maiores nomes da geração hip-hop nacional o CD BLITZ deste mês. Na Batida dos Outros , inédito e grátis com a BLITZ de abril, coleciona participações - Sam The Kid, Orelha Negra... - e prepara o futuro. 
Foi em 2007 que Valete lançou aquele que ainda é o seu último trabalho de originais, Serviço Público. Nos anos que entretanto volveram, o rapper viu o seu nome crescer e a sua arte tornar-se das mais aplaudidas. E requisitadas. Na Batida dos Outros é uma mixtape preparada para a BLITZ, alinhada e misturada pelos Beatbombers - DJ Ride e Stereossauro -, onde se cruzam diversos momentos de colaboração de Valete com gente como os Orelha Negra, Jimmy P ou Sam The Kid.


A arte da mixtape perdeu-se? 
Acho que sim. Pelo menos em Portugal. Bem, estou a ser um bocado injusto... O pessoal que está mais destacado, que está mais estabelecido, DJs e MCs, deixaram esse registo um bocado de parte, mas o pessoal mais novo vai fazendo mixtapes e eu gosto desse lado muito descontraído e descomprometido. É para isto que uma mixtape dá. Ok, não vamos estar aqui com muitos truques, temos coisas para dizer, coisas para experimentar, coisas para arriscar, às vezes, até. A atitude do "vamos pôr numa mixtape sem apresentar isto às pessoas num registo oficial"... acho que tem muito a ver com a cultura hip-hop. 

E uma mixtape com a sua assinatura, nesta altura, serve para amenizar a espera de um novo álbum? 
Se calhar, até pode vir a ter esse resultado de amenizar/atenuar alguma ansiedade de quem está à espera. Mas da minha parte não é essa a intenção. A ideia inicial para este CD até era reunir gravações ao vivo, mas isso não me interessava muito. E como tenho feito muitas participações, se calhar fazia mais sentido compilá-las e canalizar tudo para uma mixtape. A mixtape chama-se Na Batida dos Outros, ou seja, é o Valete em participações. É um conceito giro. E depois deu-me a oportunidade de trabalhar com dois dos artistas que eu mais admiro, principalmente o DJ Ride, de quem sou mesmo super fã. Foi ali uma mistura de muitas coisas. 

Como é que gere os convites constantes para estas participações? O que é que determina um "sim" do Valete e um "não" do Valete? 
Obviamente a admiração pelo artista é a primeira premissa. Há artistas com quem colaboro que sinto que, provavelmente, não são os artistas que quero ouvir, mas como também passei por essa fase dos 20 anos e sei que têm um potencial enorme, acabo por aceitar colaborar. É muito importante, para pessoal como eu que está aqui há mais tempo, apoiar quem está a começar porque sinto que daqui a dois, três anos vão ser os próximos nomes a ter em atenção. Vão ser os novos Sam the Kid, Mundo (Segundo) e Capicua.

Já aconteceu aceitar uma colaboração também por apresentar um tema que nunca tenha abordado antes nas suas letras? 
Sim, isso às vezes acontece. Até neste tema que fiz agora com a Capicua, "Medusa", que é um tema essencialmente feminino. Isto é, é um tema que fala sobre as mulheres que são vítimas de sociedades sexistas. Ela queria a perspetiva de um homem no tema. E eu nunca tinha abordado esse tipo de assunto. 

Já rimou com praticamente toda a gente do meio hip-hop nacional. Falta-lhe algum nome da lista? 
Se calhar do Brasil e de outros sítios há rappers com quem gostava de fazer músicas e ainda não fiz. Por exemplo os Racionais. Em Angola, vou agora fazer uma música com o MCK pela primeira vez. Em Portugal, já fiz com quase toda a gente, mas ainda quero fazer uma música com o Sam que consiga ser intemporal. Já fizemos alguns sons que ficaram lá atrás. E com o Mundo também gostava. 

Há quem diga que o hip-hop colocou Obama no poder na América. Em Portugal, o que conseguiu o hip hop? Abrir o caminho para termos o Anselmo Ralph em horário nobre na TV? 
O hip-hop foi dos movimentos que melhor fez o combate ao racismo. E foi um combate silencioso. Há inúmeros grupos multirraciais. É lindo. Os Grognation, por exemplo: é um grupo que tem um moçambicano, tem um rapaz de Cabo Verde, tem pessoal português. Existem muitos grupos assim em Lisboa. Normalmente as plateias de hip-hop são multirraciais. E isto não se vê em quase lado nenhum. Os africanos dizem-me que as discotecas em que eles conseguem entrar são discotecas africanas. Têm muita dificuldade em entrar noutras discotecas. Para se ver uma plateia multirracial, provavelmente só num concerto de hip-hop. Mais do que num estádio de futebol, até porque a comunidade negra fica arrumada numa classe social baixa e os preços dos bilhetes são cada vez mais altos. Mas vês isso num concerto de hip-hop. Os miúdos já crescem a ver esta coisa da raça de outra forma. Muitos jovens portugueses cresceram a idolatrar rappers negros. Ou seja, se é possível hoje catapultar o Anselmo Ralph como um dos maiores artistas em Portugal, acho que isso deve-se também muito ao hip-hop português. 

Na história do hip-hop, a figura do DJ é muito importante. Como acompanhou a evolução do DJ em Portugal? 
Tive um debate muito interessante sobre isso com o Cruzfader (DJ dos Orelha Negra). O DJ tem perdido o papel que já ocupou na música rap e também na cultura hip-hop. Até chegarmos a um ponto em que muitas bandas de hip hop já nem levam DJ para o palco. E concluímos que o DJ hoje tem que fazer muito mais do que scratch. Tem que ser mais abrangente. E é aí que eu vejo o Ride como um exemplo. Primeiro, ele entende que o hip-hop também pode ser drum'n'bass. Também pode ser reggae. Ele percebe que o DJ, pela sensibilidade musical que tem, pode-se estender à produção. E acho que é isso que os DJs têm que entender melhor. Em 2015 não faz sentido resumirem-se ao scratch.

Ainda se lembra de quando ouviu falar de DJ Ride pela primeira vez? 
Não o conhecia pessoalmente mas já ouvia falar dele por causa dos campeonatos que se realizavam em 2004/2005. Para mim, o Ride era um fã de Nel Assassin e queria ser mais um Nel Assassin. E o que me surpreendeu, e a toda a gente, foi que ele rapidamente percebeu que podia ser maior do que o que um DJ hip-hop tradicional conseguia ser em Portugal e que podia tornar-se uma referência. Foi incrível, mas obviamente que isto não é só talento. Estivemos a planear a mixtape e o Ride é das pessoas mais metódicas e trabalhadoras que eu conheço. É inacreditável. 

E agora? O que se segue no seu caminho? 
Tenho mesmo muitas participações para sair. Eu queria, a partir de maio/junho, dedicar-me só ao meu álbum, que é capaz de estar terminado no fim do ano - perfeito seria lançá-lo no início de 2016. Obviamente que existem muitas coisas que não dependem de mim e eu vou querer envolver muita gente neste álbum, algo que não fiz nos outros e que, provavelmente, vai tornar o ritmo mais lento. Ou seja, o que estou a fazer é profissionalizar-me. Eu quero fazer um álbum como a Ana Moura faz. Ter um produtor, arranjar o melhor para mixar, arranjar o melhor para masterizar e encontrar a editora que está a trabalhar melhor. Eu quero profissionalizar-me e até seguir o que muitos dos meus parceiros estão a fazer, como Dealema, Capicua e Regula, etc. Eles estão a conseguir trabalhar bem, não só ao nível artístico, mas também a nível de carreira. É isso que eu quero fazer daqui para a frente. 

Mas tem muita coisa que foi gravando nestes últimos três ou quatro anos... 
Sim, há muita coisa gravada. Eu cheguei a lançar algumas coisas [avulso], mas nunca mais vou fazer [assim]. Porque eram coisas de que eu já não gostava. 

Está a referir-se a "Meu País", por exemplo? 
Também. Eram coisas por que eu já não sentia grande apego e que, ainda assim, lancei. Tu tens que ser a primeira pessoa a gostar da tua obra. Sei que já houve casos de "lost tapes" que se transformaram em clássicos, mas para mim isso não resulta porque às vezes a coisa até vinga e as pessoas vão exigir aquela música nos concertos. E depois entra-se num processo muito doloroso de estar a ensaiar músicas que não gosto. 

É autocrítico? O que lhe dizem os seus pares? 
Eles muitas vezes gostam dos temas, mas só que eu sei, e acho que é notório, que tenho um handicap musical. Eu tenho noção disso. E com esta aprendizagem que tenho tido, mais facilmente percebo os erros que fazia nas músicas. Então se eu for lançar o que está lá para trás é muito doloroso porque vejo um milhão de deficiências. Entrei num processo de aprendizagem musical e agora percebo as asneiras que andava a dizer. Prefiro deitar fora do que partilhar. 

E não há o perigo de se perder a melhor rima de sempre? 
Acredito que não. Até porque acho que a melhor rima de sempre só é possível quando está bem casada com o melhor instrumental de sempre. 

Já houve épocas em que o debate era exatamente o contrário... 
É normal. Faz parte do crescimento. Mas também era bonita a defesa que eu fazia, na altura, do papel do MC/rapper. Eu cresci a ouvir álbuns de letristas, que tinham algumas deficiências musicais, mas por serem álbuns de letristas nós focávamo-nos muito no texto. E mais do que diversão, mais do que dança, nós estávamos a absorver mensagens, ideias e pensamentos. Fez-nos crescer muito. 

Capa e alinhamento comentado de Na Batida dos Outros

in Blitz

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