DarkSunn: hip-hop sem limites, música sem fronteiras

“Nós somos nerds, somos geeks, mas também somos os gajos que, se for preciso, vão estar na festa a dançar em cima da coluna. Tirar as palas, abrir mais os horizontes." Não há limites”, conclui Bruno Dias, ou DarkSunn, autor de hip-hop, maioritariamente instrumental.
Bruno Dias está sentado numa esplanada em Almada, depois de nos fazer uma visita guiada à cidade que sobe desde o Cais do Ginjal pela rua Cândido dos Reis, revitalizada nos últimos anos com reabilitação urbana, novos cafés e bares, um hostel aqui e ali. É sentado nessa esplanada que este almadense de 32 anos, alguém que, por obrigação profissional, passa grande parte do tempo a viajar pelo mundo, dirá ao Ípsilon: “A minha música será sempre hip-hop. Posso estar a fazer house que será sempre hip-hop”.

Bruno Dias é DarkSunn, autor de hip-hop, maioritariamente instrumental, que tem evoluído das bases de soul, de funk e do jazz de groove afrocêntrico da década de 1970 para paisagens mais abstractas, menos orientadas para osampling, onde sobressai a ideia de viagem e fantasia sci-fi, misteriosa, estelar. É um dos fundadores da Monster Jinx, plataforma (editora mais colectivo) fundada em 2008 que alberga DJ e produtores como Slimcutz, um dos novos nomes em destaque no djing português, MC como J-K, nome em ascensão depois da edição do álbum Sorriso Parvo, em 2013, ou Stray, co-fundador que fora, antes, um dos agentes da Matarroa, clã e editora portuense de um hip-hop fervorosamente independente em método e estética.

“Nós não somos o melhor exemplo de crewclássica. Já nascemos futo de conversas no chat. O Stray no Porto, eu cá em baixo, começámos a trabalhar”, diz Bruno, barba farta mas bem aparada, corte de cabelo que não pareceria deslocado em concerto rockabilly, t-shirt e calças pretas. Fala com incontido entusiasmo da editora e do seu trabalho, enquanto assinala a felicidade de ter crescido em Almada, terra que, “por ter um certo requinte, mas ser também rude”, proporciona o florescimento de música menos dada ao conforto. “Enquanto crescia, tive a oportunidade de tanto ir a concertos de hip-hop quanto de punk hardcore”, recorda. Junte-se a essa contingência local o “privilégio” de ter sido descoberto pelo hip-hop – é esse o termo que utiliza – na década de 1990: “Uma era dourada que me ensinou que não podemos ter medo de experimentar, que temos de estar sempre a empurrar os limites” – “foi por esse experimentalismo que me apaixonei por esta música." Junte-se a tudo isso, por fim, a perfeita consciência do que é o seu tempo e perceberemos melhor o que são DarkSunn e a Monster Jinx – editora que é também crew, mas longe do padrão clássico. “Se não há fronteiras, não temos de estar ligados por locais, mas por interesses. Foi isso que a Internet nos trouxe." A Monster Jinx é formada por músicos de Lisboa, do Algarve, de Bragança, de Guimarães ou do Porto, a cidade mais representada. “Estamos a dominar o território nacional”, diz com uma gargalhada. “Já conseguimos fazer Algarve até Trás-os-Montes."

Ao olhar para o passado, recorda o boom hip-hop dos anos 2000, destacando a importância de Sam The Kid, de Valete, ou dos Micro de D Mars, Sagas e DJ Nel Assassin. “Mostraram que era possível fazer as coisas de forma independente." Recorda o ponto de encontro (e de formação de gosto e de talento) que era uma loja como a Godzilla, depois a Kingsize, depois dela a Supafly: “Nasceu ali uma geração inteira de DJ de hip-hop que compreendia o vinil mas que facilmente transitou para o MP3." Essas foram as indispensáveis bases. Mas o tempo é agora.

Híbridos em todo o lado

Bruno Dias recorda-se também de ter visto há vários anos o histórico DJ Premier a chocar a parte purista do público quando, a meio do seu set, passou uma canção dos Nirvana. “This is hip-hop!”, gritava. “E é verdade. O que ele fez é o mais hip-hop possível”, afirma Bruno Dias. “Agrada-me ver as barreiras a quebrarem-se, a desaparecerem. Rótulos só fazem sentido na prateleira de uma loja de CD para vender estilos de música. A geração da Internet acabou com isso. Deixámos de pensar no que é música americana, brasileira ou de Singapura. Vemos a música como música global, simplesmente. As influências já não têm um centro. Eu tanto apanho influências de Tóquio como a influência africana que está hoje por todo o lado em Lisboa. Há híbridos a aparecer em todos os países."

A Monster Jinx, onde o hip-hop de balanço clássico e lírica moderna de J-K convive com a hibridez electrónica de Slimcutz, com o talento de produtor de, por exemplo, OSEB, e com o universo fantástico, literal e metaforicamente, de Stray, é um óptimo exemplo dessa hibridez contemporânea. “A nossa identidade é não termos caixa onde nos possam enfiar. Durante anos, no hip-hop, fomos beber à herança norte-americana do funk e da soul. Agora caímos também para a electrónica e ganhámos espaço para muita coisa. É uma geração sem grilhões, com influências tão profundas, tantas vezes desconhecidas da maioria, que parece não haver limites para o que podemos fazer."

Bruno começou por improvisar rimas, como todos, quando não era fácil chegar à tecnologia de produção hoje tão acessível. Com a passagem do tempo, à medida que o material foi chegando, célere e barato, percebeu que o seu gosto e o seu talento residiam não tanto na palavra, mas nos sons que a envolvem. “Entendi que tinha mais a dizer a construir instrumentais do que enquanto MC.”

Melange, o EP que editou recentemente, mostra aonde chegou a sua música depois de, em lançamentos como Mint, ter explorado a tradição soul, funk e jazz que tanta história deu à história do hip-hop. Inspirado em Dune, o romance de ficção-científica de Frank Herbert, que relia enquanto o seu trabalho de consultor de qualidade o levava à Europa de Leste, a África ou ao Sudeste Asiático, foi gravado em viagem, “sob o efeito do livro”. E é verdadeiramente música de viagem. Batida hip-hop dando movimento a electrónica ambiental, música como banda-sonora de um filme que não vemos, mas que forma imagens enquanto os temas se sucedem e ouvimos, espaçadas, as vozes distorcidas e as palavras que nem sempre entendemos. Como referências, Bruno cita o RJD2 de Deadringer (“Uma influência directa na utilização de samples, pelo cunho soundtrack que lhes dava”), fala de El-P, hoje metade dos Run The Jewels (“Ensinou-me como criar as camadas [de som]”), refere o larger than life Ennio Morricone e entusiasma-se quando dirige a conversa para as bandas-sonoras de John Carpenter (“Para mim um dos melhores realizadores de sempre”).

Tendo em conta a música que faz e a música que sai da Monster Jinx, tendo em conta a percepção do mundo que o rodeia, Bruno dias afirma peremptório: “Quando era miúdo apanhei muito com a história de o hip-hop ser um género bastardo. Hoje isso já não faz sentido. É respeitado e, mais do que isso, tudo nele já está assimilado pelas pessoas. Toco hip-hop em muitos sítios onde não seria possível há cinco anos. Agora é simplesmente natural."

A Monster Jinx, colectivo de gente com humor non-sense que é reflexo do universo on-line – ouça-se a canção-manifesto da crew, que leva o títuloVenera o Diabo (faz festas a gatinhos) –, grupo de criadores com a cabeça recheada de cultura pop (abundam as referências ao Anime japonês, por exemplo), mantém os alicerces firmes no hip-hop em que se formou, mas antenas sintonizadas em muitas outras frequências. Pertence a um novo mundo que se vai formando na comunidade. “Cada vez fico mais feliz a tocar para um público em que vejo uma mistura de estilos, e isso na Jinx sempre existiu”, diz Bruno Dias. “Nós somos nerds, somos geeks, mas também somos os gajos que, se for preciso, vão estar na festa a dançar em cima da coluna. Tirar as palas, abrir mais os horizontes. Somos uma multitude de personalidades, o que é um sinal dos tempos. Não há limites."

in Cultura-Ípsilon

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