O “graffiti” e o grito

Deparei há dias, numa das minhas visitas a Setúbal, com um elaborado e interessante “graffiti”, nas paredes laterais de uns barracões, na zona ribeirinha da cidade. Foi uma agradável surpresa, que me fez interrogar sobre a forma como esta disciplina da arte urbana estaria a ser integrada e propiciada pela Câmara Municipal.
Fui ao “site” do município e nada! Zero sobre “urbanart”, zero sobre “graffiti”. Espero sinceramente que o facto se deva a alguma inabilidade minha, ao manejar a internet difícil que tenho quando viajo ou, no limite, a uma falha no “site” da CMS. Porque de outra forma, é um sinal do que arte e cultura são coisas que esta Câmara não trata como deve.


Em Lisboa, a edilidade acarinha a “urbanart”, a ponto de, nas ruas lisboetas, ela florescer com obras de artistas nacionais e estrangeiros, criadas com o apoio da Galeria de Arte Urbana da Câmara Municipal. Ou de se realizarem exposições, como a mostra dos brasileiros Gémeos no Centro Cultural de Belém. Este apoio ao “graffiti” e aos seus produtores ajuda a fazer de Lisboa uma cidade cosmopolita, sendo mais uma razão para a fama da cidade, além-fronteiras. E a capital portuguesa não está sozinha, é assim cada vez mais nas urbes deste mundo globalizado.
Poderá dizer-se que esta atitude de encorajamento e atribuição de estatuto à chamada arte urbana, sendo como é positiva, reflete também uma forma de domesticação da rebeldia dos jovens, nas ruas das cidades. É verdade, mas, a par com esta nova forma de arte que o sistema íntegra na sua economia, há um “graffiti selvagem”, e digo-o no bom sentido, que nasce da revolta de gente muito jovem, contra as condições sociais de vida que enfrentam.
Um “writter” não quer que lhe ofereçam paredes para ilustrar, a sua essência está em sentir-se livre para “grafar” na cidade toda, mesmo com a polícia à perna. Porque a sua “tag” é, antes de mais, um grito; e isso sê-lo-á sempre, mesmo que o talento do artista não lhe ilumine o gesto.
Portanto, a par com a civilizada “arte urbana” de grafiteiros mais ou menos assimilados, persiste o risco-manifesto dos deserdados urbanos; uma não podia existir sem o outro. Será que em Setúbal se pensa nestas coisas?

in Setúbal na Rede

 

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