Murais políticos: autoria deixou de ser em exclusivo dos partidos

A autoria da pintura de murais de contestação política deixou de ser um exclusivo dos partidos, prova disso são as pinturas protagonizadas pela chanceler alemã e pelo primeiro-ministro português, que podem ser vistas na zona das Amoreiras, em Lisboa.
Os autores dos murais Marionetas de Merkel e Lei do Mais Forte não pertencem a partidos políticos, são 'writers' portugueses, fazedores de graffiti, arte urbana que, por tradição, não está ligada à política.
«Por tradição não, mas essas barreiras já foram quebradas com o tempo. A parte tradicional do graffiti está em expansão e está em constante mutação», disse à agência Lusa Nomen, um dos autores dos dois murais referidos anteriormente, e um dos pioneiros do graffiti em Portugal.


Nomen, nascido no ano da revolução dos cravos (1974), começou nesta arte em 1989 e há seis anos que vive em exclusivo do graffiti.

«Vivo entre o mundo plástico (pintar quartos de crianças, empresas) e o verdadeiro (este), onde o meu trabalho não é pago», disse.

Mas como é que um ‘writer’, que sempre se dedicou ao graffiti mais tradicional, decide participar na criação de dois murais de intervenção?

«Houve alguém, que dava pelo nome de Governo Corrupto, que entrou em contacto comigo através do Facebook [rede social na Internet]. Ele também fazia graffiti e disse-me: ‘não achas que está na hora de começarmos a usar as latas e o que sabemos fazer de outra maneira? Mostrar às pessoas o que é verdade e a realidade, num contexto mais político?», recordou.

O contacto bastou para que Nomen fosse «espicaçado»q, e, passadas duas semanas tenha, com mais três ‘writers’ portugueses (Slap, Kurtz e Exas) feito o primeiro mural “relacionado diretamente com a temática da política”.

No primeiro, A Lei do Mais Forte, a ideia era «pôr a culpa na política e nos políticos».

«Ele [Pedro Passos Coelho] é uma ótima personagem para representar a culpa. É ele que dá a cara, ele é o que será mais facilmente identificado e retratado. O cenário é do Velho Oeste, porque para mim, e para muita gente, ele é um ladrão que nos põe a mão nos bolsos. Daí ele estar naquele formato, desenho e conceito», explicou.

A realização deste mural contou ainda com a participação de um ‘writer’ suíço, Luka, que, de passagem por Lisboa, ao vê-los pintar pediu para juntar-se à equipa.

Uns metros ao lado, em Marionetas de Merkel, surgem retratados, a chanceler alemã, o primeiro-ministro português e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas.

Aqui há um «repartir de culpas». «Eles [Passos e Portas] são culpados, claro que sim, mas têm alguém por trás. Neste caso Angela Merkel, que também é patrocinada por lóbis e grupos mundiais e famílias com poder», disse.

Do desenho, além das personalidades políticas, fazem parte também símbolos da Maçonaria, como um compasso e um esquadro com a letra G no meio, colunas ou o olho que tudo vê.

O cenário é um palco de teatro e os ‘writers’ perguntam: «Quanto tempo mais querem ficar a assistir a este show? A nossa dívida continua a aumentar».

Neste mural, «realizado sem ajuda externa», além de Nomen, participaram também Slap e Kurtz.

Para Nomen, estas obras de arte são um «acordar de consciências e de mentes».

«A pintura sempre ajudou a mostrar a verdade, desde há centenas de anos. Esta é mais uma forma de mostrar às pessoas, nos dias de hoje, na cara delas, para que reflictam», defendeu.

O ‘writer’ espera que as pessoas que virem os murais, «se estiverem no meio artístico, se sintam de alguma forma contaminadas», como ele foi, «a mostrarem e a expressarem-se, da forma com que mais se identificarem».

Nomen assegurou que não vai ficar por aqui. Nos próximos dias, em Lisboa, é possível que nasçam mais murais de intervenção política, feitos por cidadãos que não têm ligação a partidos.

in Sol

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