Cultura hip hop reina por detrás dos montes

O refrão é do rapper transmontano Flow Bro: "Minorias perdem força, sofrimento é geral, se isto continua, vou vazar de Portugal". Como está o hip hop em Trás-os- Montes? Resiste, cresce, recomenda-se.
"Claro que condiciona estares aqui, como não?", diz rapidamente o rapper Flow Bro, que já está a exemplificar: "Se atuas em Bragança, já sabes, tens que carregar tu tudo, micros, cabos, turntables, mesa de som; se atuas no Porto, só tens que chegar e atuar. É só isso. Mas isso faz toda a diferença".
Flow Bro chama-se Rui Pires, tem 28 anos, cara de Silent Bob, e está sentado numa tasca escura, mas que tem wi-fi, com MK Nocivo (chama-se Jorge Rodrigues, tem 27 anos) e o DJ 90 Cutz (Bruno Antas, 28), brigantinos como ele. Debate à mesa: o isolamento de viver por detrás dos montes condiciona a criação? Não há peleja, vivem todos a mesma situação, nem se discute, claro que te delimita todo o tipo de ação, assentem os três, e 90 Cutz, que tem o cabelo e o olhar mais espetado, põe o ponto final, convocando um sentimento típico transmontano: "Mas, é claro, a contrariedade dá-te raça e é da dificuldade que tu vais fazer a tua força".

Não faz só isso, a interioridade aproxima-os igualmente, faz deles cúmplices, colaboram entre si, acumulam, com isso crescem, e, pormenor que por aqui é maior, conserva o trabalho deles todo em rede, razão futura de mercado que os pode salvar.

Este tipo particular de contexto vai dar um fruto, ainda inédito, que MK Nocivo quer revelar até ao verão: a edição da mixtape "Por detrás dos montes", um mostruário de 25 artistas rap/hip hop dos distritos de Bragança e Vila Real, um género que por ali tem mais têmpera do que o rock, que parece abandonado às bandas de covers, de batizados e de bailes de salão. As gravações decorrem na casa de MK, o download das 25 faixas vai ser gratuito.

Instalados na região setentrional, sem mais norte português acima da cabeça, depois já é Espanha, é claro que em Bragança só em sonhos os músicos vivem só da música. Ainda que cada um deles tenha um currículo criador há já dez anos, com a net inundada pelas suas composições, a realidade chega e choca com a economia: Flow Bro faz horas num call center e ocupa-se a estudar; DJ 90 Cutz é auxiliar de ação médica no hospital; e MK Nocivo, o mais ativo dos três como produtor, está desempregado e a acabar Relações Internacionais no Instituto Politécnico de Bragança.

in JN

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