Marcelo D2 volta ao hip-hop em disco

Marcelo D2 passou parte da última década em um romance com o samba. Arriscou composições, dividiu o microfone com Zeca Pagodinho, homenageou Bezerra da Silva. Foi um giro intuitivo, apesar de se associar, na superfície, ao previsível elo entre rapper e sambista, uma ligação pouco explorada, geralmente, além da nostalgia. Mas D2 tateou cocos e partidos, vivenciando a raiz de uma forma de rimar que já era rap antes da invenção do gênero. E após a imersão, completada em seu disco de canções de Bezerra da Silva, lançado em 2010, volta agora com Nada Pode Me Parar, um retorno às suas influências de hip-hop, com participação de rappers como Batoré, do popular coletivo nacional Cone Crew e do soul man americano Aloe Blacc.

"Faz tempo que não faço um disco de rap tão rap assim", conta D2, ao Estado, no sofá de uma lojinha da galeria Ouro Fino, montada para promover o novo trabalho. "Mas tem muita influência do samba. Muita coisa que eu aprendi esses anos", completa.

O aprendizado o colocou em uma busca da simplicidade, aquela estética tão aperfeiçoada pelos bambas. "Quando fui gravar com o Zeca (Pagodinho), ele pôs a voz de primeira e disse 'O samba é assim. Tá bom, já. Valeu, Tchau", conta D2, que teve a participação do cantor em seu disco Meu Samba é Assim, de 2006. "Eu sempre gravei assim mas nunca tinha pensado nisso. Posso gravar 18 vezes, vão sair 18 takes diferentes, mas não quer dizer que um seja melhor que o outro." Em Nada Pode Me Parar, o simples é almejado em diversas formas, desde as gravações, feitas em estúdios caseiros e lapidadas pelo veterano produtor Mário Caldato, em Los Angeles, à capa, em preto e branco, e à filosofia criativa. "Quero ser o mais simples possível, mas ao mesmo tempo ter uma profundidade poética. É difícil. O rap tem muita letra, então você acaba falando muito sobre um assunto e às vezes bate na mesma tecla", conta.

Nada Pode Me Parar passa por diversos afluentes de hip-hop. Há beats clássicos, com samples que ecoam soul music, assim como uma produção contemporânea (na faixa Fella, produzida por Batoré), calcada no minimalismo atual da trap music (vertente influenciada pelo hip-hop sulista do começo dos anos 2000), que se escuta no mainstream.

"O rap de agora, que está na moda, é bem parecido com o rap dos anos 80. Só bumbo, caixa e poucos elementos. Não é o que eu mais gosto. Prefiro algo mais melódico", reflete sobre as elogiáveis bases do disco.

Aos 45, D2, codinome de Marcelo Maldonado Gomes Peixoto, já viu o bastante para ter as próprias filosofias sobre rimas e processos criativos. Ainda está à Procura da Batida Perfeita, como sugeriu o nome de seu disco de 2003 (traduzido de uma música de Afrika Bambaataa), mas, como bom filósofo, sabe que a tal batida é inalcançável. "Se a achei, não importa. Isso fará diferença quando eu morrer. A batida é menos importante que a procura", diz e completa: "Trabalho muito com o desapego. Quando tá pronto, tá pronto. Se eu ficar nessa de melhorar isso, aquilo, não vou colocar na rua nunca. Às vezes lanço coisa que acho que tá errado só por lançar. Chegou a hora de a música tomar vida e ir embora. Não tenho medo". A busca é a de uma "música regional, que soe universal", conta o rapper, citando uma conversa que teve com Chico Science, nos anos 1990.

Quando cria uma rima, D2 não a coloca no papel. Memoriza, canta para sua mulher, para os amigos, para um taxista carioca, até certificar-se de que os versos são bons (às vezes os esquece, mas prefere pensar que estes já não eram tão bons). Faz tudo em uma tacada só - rima e melodia -, embora passe seus meses de criação trancafiado durante boa parte do dia.

Para estes momentos, D2 desenvolveu um processo curioso. Liga a TV, abre livros, escuta música e fuça no computador. "Isso tudo me leva para um mundo totalmente diferente. Só o espaço da cabeça é pequeno demais para guardar tudo."

 

in Estadão 

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