Carruagens da CP vão ser "galerias" de arte pública

A moda de pintar carruagens de comboios com graffiti de inspiração e qualidade variáveis já tem alguns anos, mas a CP - Comboios de Portugal decidiu elevá-la ao estatuto de arte pública.
O convite foi feito a seis artistas plásticos - com destaque para Alexandre Farto, ou "Vhils", celebrizado pela arte urbana em que escava paredes para revelar rostos - que redecoraram sobretudo o interior de carruagens do norte ao sul do país para o projeto JANELA, dirigido pela associação sem fins lucrativos P28.

As mensagens aplicadas em vinil pelo interior das carruagens estacionadas na estação de Contumil deixam adivinhar eventuais conversas atípicas ao longo das viagens sobre carris: "Tens medo que faça amor contigo?", "Às vezes não falo com as pessoas para ver se sentem a minha falta" ou "Sou infeliz", correm o risco de parecer balões de banda desenhada sobre os passageiros que sob elas se sentem.

"As carruagens são uma peça muito importante na indústria e até na arte - começaram a ser pintadas nos anos 70 em Nova Iorque com graffiti", explica à Lusa Sandro Resende, diretor artístico do projeto JANELA, para considerar que "os 'writers' [nome dado aos artistas de graffiti na gíria da arte urbana] são muito importantes na nossa sociedade".

Para Sandro Resende, "a arte urbana é muito importante numa cidade, seja nas paredes, seja nas carruagens, e isto não vem substituir nem uma coisa nem outra", pelo que não vê "qualquer tipo de problema em que venham a ser grafitadas ou intervindas por outros artistas".

"Acho que até é essencial para que as coisas andem um bocadinho mais para a frente", diz, em referência à evolução da aceitação da arte de rua, "para que não se veja a arte urbana como qualquer tipo de vandalismo, o que é uma parvoíce."

O diretor de projetos da P28 esclarece que "a CP queria investir em arte contemporânea", pelo que lhes foi sugerida a utilização dos comboios como "o melhor suporte possível para trabalhar", mas sempre com "respeito pelas carruagens em si", algo percetível no facto de apenas uma composição, numa linha de Lisboa, ter sido redecorada no exterior, com três carruagens alteradas pelo artista catalão Alberto Folch.

"Acho que vai haver aqui dois momentos: o de exposição montada, porque esta é uma exposição de arte contemporânea, e depois ao longo do tempo de durabilidade, que é grande: o que é que irá acontecer? Será vandalizado ou não, aproveitado ou não aproveitado?", indaga Sandro Resende.

Já para João Seno, técnico de aplicação de vinis da empresa de publicidade contratada para executar a visão dos artistas, a questão da efemeridade da arte é ainda mais bem-vinda: "tudo o que é trabalho exposto à rua, como em 'outdoors', está sujeito a esses vandalismos", diz à Lusa, para concluir que isso "é bom para a área da publicidade".

"Estragam, nós fazemos mais", sublinha, sem esconder um sorriso.

in DN Artes

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