União de rimas no festival Terra do Rap

Sentados, a partir da esquerda, Eva Rapdiva, Vinícius Terra e Capicua; em pé, Bob-X, DJ Nino Leal, DJ Sr. Alfaiate e Kid MC: algumas das atrações do evento - Daniela Dacorso

Do lado de fora do estúdio na Barra, o angolano Kid MC ouve uma música nova de Mos Def no celular, enquanto sua conterrânea Eva Rapdiva, entretida, lê mensagens no seu aparelho. Depois, ele pergunta se é possível que comprem um creme hidratante para o seu rosto, que está ressecado, e não entende quando alguém acha graça (“Homem no Brasil não usa creme?”, indaga, ressabiado).
Lá dentro, a portuguesa Capicua pede ao repórter que improvise e marque o tempo exato de uma capella que vai fazer naquele momento. Numa mesa, onde estão dois toca-discos, o DJ Nino Leal, sentado ao lado do DJ português Sr. Alfaiate, espera o sinal para soltar a base e fazer alguns scratches. Então ela começa, destacando um trecho da música “Alfazema”, de teor feminista, que diz: “Com recato e em privado, não te exponhas como a outra/Abre menos essa boca, poupa o teu questionamento/ Rosto e corpo no ponto e com pouco pensamento, tento/ Fazer diferente, ser diferente dessa norma militarmente/ Ser exemplo, contradizendo-o sempre”. Quando termina, recebe a informação desejada. Deu 1m27s, cravados.

Capicua (nome artístico da socióloga Ana Mattos), Kid MC, Eva Rapdiva e Sr. Afaiate são alguns dos artistas que estão no Rio para a segunda edição do festival Terra do Rap, que busca, nas palavras do seu idealizador, o rapper Vinícius Terra (formado em Letras pela Universidade do Porto), “integrar os países de língua portuguesa”. Após alguns workshops e pocket shows em unidades do Sesi no interior do estado, 13 nomes de hip-hop do Brasil (como De Leve e Bob-X), Portugal e Angola vão concluir essa intitulada “caravana rap lusófono” em uma apresentação conjunta, no show Fita Misturada ao Vivo, hoje, às 19h, no Sesi Centro.

— Essa ideia começou a surgir quando estava morando em Portugal e me encantei com a métrica e a lírica dos artistas de Portugal, de Angola e de Moçambique, por exemplo, que são diferentes dos daqui — conta Vinícius. — Nosso português é outro, e a gente dialoga pouco com essa turma. O festival veio com essa proposta de integrar mais esses representantes da cultura urbana lusófona.

Destaque da “caravana”, Capicua é do Porto e tem dois álbuns lançados, sendo “Sereia louca” o mais recente deles. É desse elogiado trabalho de 2014 que vêm “Alfazema” e também músicas de rimas ricas e ritmos variados como a autobiográfica “Vayorken” e “Soldadinho”, que tem a participação da fadista Gisele João.

— Minhas primeiras influências, curiosamente, eram artistas que meus pais ouviam, como Sérgio Godinho, Zeca Afonso e outros nomes que se destacaram na Revolução dos Cravos, associando a música à palavra. Faço rap acima de tudo porque gosto de escrever — explica ela, 30 anos, cujas letras falam de ecologia, feminismo e temas políticos. — Nesse álbum, tento conjugar essas referências, que incluem o fado, com a atual diversidade do rap em Portugal. Com a crise atual no país, o rap tem sido um dos principais veículos para debater esse assunto. Falamos de nossos problemas da nossa forma, assim como os rappers brasileiros e os angolanos fazem à sua maneira, cada um com seu sotaque.

O sotaque de Kid MC — nascido em Huíla há 28 anos e que conviveu na infância com a guerra civil no seu país — é forte, intenso e reflete suas origens, assim como seu estilo de rap.

— Em Angola, fazemos rap numa mistura com os diversos dialetos locais. Nossa realidade é diferente das realidades brasileira e portuguesa. Mesmo assim, é esse o som que nos aproxima — garante ele, fã de Gabriel O Pensador, Rappin’ Hood e Emicida.

in O Globo

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