Pearls Negras. Rap de saia em cama de funk e trap

Cinco anos depois do início, as três pérolas estão em digressão europeia que hoje desagua no Lux, em Lisboa, às 00h30
Miúdas são os trapos. Aqui a utilização da internet é ilimitada e as vestes - curtas e coloridas - não são objecto da inquisição paternal. As Pearls Negras, como em "pérolas", são as raparigas mais populares do bairro, ou, neste caso, da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, já que há cinco anos que tratam de propagar o seu rap sobre uma cama de trap e funk pelos ouvidos da comunidade.

Alice Coelho (18), Mariana Alves (17) e Jennifer Loiola (17) deram o pulo para outras escutas através de uma dupla de produtores britânicos que as viu num sarau no Complexo do Alemão. Até Março deste ano as três amigas nunca tinham andado de avião, não tinham visto outras paisagens que não as do Rio de Janeiro. Um espectáculo em São Paulo foi o motivo do primeiro nó na barriga ao levantar voo. As Pearls Negras voaram e de que maneira. Desde o lançamento da sua mixtape "Biggie Apple", em Dezembro de 2013, com o selo da editora inglesa Bolabo Records, que passaram a figurar em inúmeras publicações internacionais e a digressão europeia já era de esperar.

Falam-nos directamente de Londres, bem longe do Vidigal, de onde Mariana Alves, por telefone, nos diz que a demora do reconhecimento "se deve a nenhuma gravadora do Brasil se ter interessado pelas Pérolas".

No entanto, esta gente não é de esquecer de onde vem. Os cifrões não as fazem fugir em busca de uma casa fora dali: o Vidigal é a incubadora criativa das três, onde todos as aplaudem. "A nossa comunidade já nos conhece. Antes o Vidigal tinha um camping show, que decorria todas as quartas-feiras. Por ali passavam muitos talentos, tinha música, teatro, poesia, diversas vezes a gente se apresentava ali também. A comunidade tem seguido a nossa carreira e dão muito carinho às Pérolas Negras", garante Mariana.

Hoje já não são as meninas dos improvisos nas escadas do morro, muito menos são aquelas que dão concertos em escolas e deixam os rapazes em êxtase. Bem, não é que não o façam actualmente, mas a forma como olham o público de cima do palco já é aquela de quem sabe o que faz, de quem quer provocar mas nem por isso esquece o rap coerente, de rimas aguçadas e temperadas com batidas quentes. "Os nossos shows são para tudo. Para dançar, rimar, se divertir, namorar, é para tudo um pouco, a gente tem bases de trap, de funk, mas a gente sempre manda a realidade sobre o que acontece na sociedade com as nossas letras. Quem vai assistir a um concerto das Pérolas Negras curte, dança, mas também sai de lá com uma mente mais aberta sobre as coisas, sobre o rap em si."

Se dúvidas restassem quanto à atribuição do nome do conjunto, Mariana esclarece-nos aquilo que antes já havíamos imaginado. "O nome define muito o que é a mulher e nós somos preciosas, negras assim, a gente defende muito a nossa cor na nossa música, temos originalidade, me parece que o nome se encaixa perfeitamente." Assim como todos, o que também se encaixa são as referências que têm como luz para fazer das suas, nomes como Nicki Minaj, Beyoncé, Ciara, Drake, Marcelo D2, entre outros. E como se sabe não há duas barrigas iguais, cada uma com o seu cognome. "A Alice, ela é mais extravagante, mais ousada, gosta de decotes, de roupas coloridas e ela se inspira muito na Nicki Minaj. Eu uso muito calça colada, barriga de fora, e gosto de usar óculos, então as meninas me chamam muito de intelectual, inspiro-me bastante na Beyoncé. A Jennifer, ela é mais sexy, é a mais sensual do grupo, vai buscar referências à Ciara, porque tem um jeito especial de dançar e também gosta de mostrar a barriga."

Agora que já sabemos é escolher a preferida. "Pensando em Você" é o single que nos inicia neste caminho de pérolas nem grande necessidade de lapidação. Perguntámos a Mariana se é isso que esperam, aí fica a resposta: "Puxa, claro que sim, espero que os portugueses fiquem pensando em nós até ao nosso regresso." Nada de extraordinário.

in Jornal I

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