Shabazz Palaces. O futuro do hip-hop nas melhores mãos

Eternos inquietos na reinvenção do hip-hop connosco em Lisboa para o Jameson Urban Routes, que começa hoje no MusicBox. Quando fazes música há tanto tempo como eu faço não te sentas à procura de conceitos para discos. Ao mesmo tempo há um conceito geral, uma predisposição geral que está lá. É por isso que fazemos o que fazemos." Nada que tentemos escrever para introduzir Ishmael Butler aos que não o conhecem vai ser tão exacto como isto que o próprio nos diz ao telefone.
Na primeira metade dos 90, ele e os restantes Digable Planets foram peças essenciais no período mais bem sucedido de fusão entre o hip-hop e o jazz. Um período em que o género passou a operar num nível absolutamente novo de samples, e sobretudo de ambientes, em que "Blowout Comb" [1994], o segundo disco do trio, continua a ser dos melhores registos para entender esta reinvenção.

Reinvenção que é o conceito, a tal predisposição geral de que Butler nos falava, desde os Digable Planets até aos Shabazz Palaces, projecto que tem a meias com o multi-instrumentista Tendai Maraire desde 2009, que este ano nos deu o seu segundo disco, "Less Majesty", e que agora (sábado, dia 1 de Novembro) vai estar em Lisboa para o Jameson Urban Routes, no MusicBox.

E em poucas palavras, sempre a evitar estas coisas do passado, Butler disse-nos porque começou tudo isto. "A forma natural de estas coisas começarem, no fundo. Quando conheci o Tendai as coisas começaram a fluir muito depressa. Não demorou muito a chegarmos à dinâmica de entrarmos num estúdio cheio de instrumentos diferentes e começarmos a criar coisas." Um início que, antes da edição do maravilhoso "Black Up" [2011], foi sempre dominado por um certo anonimato, de motivos legítimos. "Tudo o que queria fazer era começar do zero e que os Shabazz Palaces fossem julgados como cena própria, em oposição a serem comparados à luz de qualquer passado. Que aqui importa pouco, no fundo."

Concentremo-nos no presente, então, e nestes Shabazz Palaces, que vão sendo uma espécie de grito à consciência colectiva do hip-hop para nunca se esquecer da evolução naquilo que está para vir. São a mistura de sons do futuro com algo mais analógico e de rimas idiossincrásicas, numa convenção que nunca dá espaço aos mecanismos tradicionais da canção (verso-refrão-verso, por exemplo).

E se o seu primeiro disco é levar ao extremo estes conceitos, "Less Majesty" deixa entrar um pouco mais de ar em tudo isto. "Mudou muita coisa nos quase quatro anos entre os dois discos. Não só o espaço literal onde gravámos mudou, o que conta mais do que se possa pensar, as nossas ideias mudaram da mesma forma. Isto é uma aprendizagem, suponho que vá sempre ser assim."

É difícil encontrar uma facção mais criativa do hip-hop dos dias de hoje que os Shabazz Palaces, e restante Black Constellation, o colectivo que Butler criou, e que conta, por exemplo, com os não menos inventivos THEEsatisfaction.

"O colectivo tem a filosofia de fazer coisas. São pessoas que se encontraram numa forma muito específica de fazer música e acabaram por se juntar num só nome, apesar das diferenças no que fazem."

São mais de 20 anos a criar hip-hop que poucos fazem. As críticas ainda importam em tudo isto? "Sim. Se queres fazer coisas, tens de fazer com que sejam boas. Queres alguma divulgação para poderes continuar a tocar e para que tudo aconteça. Esperas o pior e rezas pelo melhor."

Nas referências, a matriz acaba por não surpreender, no jazz ou no hip-hop.

"Gosto do Lil Herb. Há muita coisa boa por aí e o importante é continuarmos a respeitar as fundações da forma de arte mas nunca esquecendo o potencial que isto tem, e onde isto pode ir. Também gosto de Davis ou de Coltrane, mas isso já toda a gente sabe."

Todos os motivos e mais alguns para se fazer escola no Cais do Sodré, no início do próximo mês.

in Jornal i

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