Regula. O rapper mãos de tesoura

“Casca Grossa”, novo disco do rapper, é editado dia 9. Pente Fino é o nome da sua barbearia, que fomos conhecer no dia de abertura. O concerto de apresentação acontece no Lux, dia 12
“Já não és o primeiro a tentar sorte/eu sou barbeiro, não me custa nada aplicar a corte”, diz Regula numa música com Sam the Kid no disco “Kara Davis”. Sorte a nossa que lhe pedimos a rima emprestada para nos inspirarmos para esta reportagem. Mas a sorte não acaba aqui. Avisamos que o comum é o pente 0,5, isto já depois de confortavelmente nos sentarmos em frente ao espelho. Tirar os óculos que isso não dá jeito, pôr o avental para não sujar a roupa e acabar com o nervoso malandro de quem corta o cabelo com a mesma cabeleireira desde os quatro anos e não confia em mais ninguém.

Os ossos do ofício fizeram-nos perceber que Regula trata a navalha com o mesmo gosto com que agarra o microfone, os cabelos como manequins de inspiração, os remoinhos e entradas como adversários de uma batalha. Daqui foi tudo a pente fino, mesmo o nosso ouvido atento à primeira audição de um disco prestes a sair. O risco de o penteado sair ao lado faz de quem escreve estas páginas um casca grossa – desculpe a falta de humildade, caro leitor. É o nome do disco que Regula edita no próximo dia 9, e apresenta dia 12 no Lux.

Até chegar ao Pente Fino, barbearia própria, Regula trabalhou em vários salões e barbearias. Encanto que se gerou ao primeiro corte que fez num cabeleireiro africano. “Via-se bem a diferença, os cortes, os estilos americanizados, tinha tudo a ver comigo”, conta. Só se podia seguir uma coisa: “Comprei uma máquina e comecei a treinar nos putos do meu bairro. Ao princípio nem sempre saiu bem, até a mim próprio, chinei-me todo. Aos poucos comecei a evoluir, comecei a cobrar 5€ o corte lá no bairro, e depois fiz a passagem para os salões. O primeiro em que trabalhei foi na Chiquinha, a mãe do Djaló, em Chelas.”

NUNCA DUVIDAR DE UM BARBEIRO Regula só arrumou a tesoura em 2013, depois de gravar o disco “Gancho”, precisamente quando se deu o verdadeiro twist na carreira musical de Regula, com a abordagem mais bounce a atirá-lo para públicos com que ainda não se tinha cruzado – ainda há quem tenha “Casanova” como toque de telemóvel. Hype que lhe valeu as condições financeiras para fazer o seu estúdio e agora abrir este Pente Fino. “Quis abrir o meu estabelecimento porque não quero estar a cantar até aos 50. E acho que está na altura ideal, com a minha marca, com o meu nome”, admite o rapper, ou o barbeiro, como se preferir. O empenho é o mesmo, bem patente na altura de passar para a barba.

É que se o cabelo não nos diz muito – como se pode verificar nas fotografias, rapar é o segredo –, com a barba a conversa muda de figura. Pedimos cautela para não se estragar algo pelo qual temos tanta estima. A resposta serve-se à Regula, sem meias conversas: “Isso é o mesmo que pedires aqui ao fotógrafo para ter cuidado com os retratos. Não te preocupes que eu sei o que faço.” Lição aprendida com distinção: nunca duvidar das capacidades de um barbeiro. O resultado é digno de cinco estrelas, já cá não está quem falou.

TODOS SOMOS CASCA GROSSA Para o rapper do Catujal, a tradução literal do título do disco não se aplica. É precisamente o significado corrente, que o povo emprega, que Regula quer enfatizar. “Cada pessoa pode ser casca grossa à sua maneira. O homem que trabalha nas obras que se levanta as 6h da manhã e só chega a casa às 22h, isso para mim é um casca grossa, se ele está ali é porque tem responsabilidades. O velhote do dominó que é o verdadeiro casca grossa e que ninguém tira da mesa são exemplos. O que quero com o disco é que cada pessoa o sinta à sua maneira.”

Já depois de passar o creme hidratante no rosto, sentamo-nos para falar mais de música e menos de cortes. Com dois anos de intervalo entre discos, “Gancho” e “Casca Grossa” não pode estar assim tão distante. Enquanto Regula nos dava um novo look mais cuidado, fomos ouvindo todas as faixas de um disco com colaborações diversas, de Sam the Kid a Valete, passando por Holly-Hood e Carlão, entre outros. O riso sobre rimas que não importam agora ser reveladas – tudo a seu tempo – é natural, não estivéssemos perante um rapper de humor aguçado, de gozo constante com a realidade urbana que o rodeia.

De resto, como o próprio avisa, este mais recente trabalho “é muito mais bairrista, não tem temas amorosos como no “Gancho”, não há dramas, é mais positivo, com mais punchline”. Do que se conhece, “WOMB”, sigla de “Weed On My Balls”, é o segundo single do disco – depois de “Mêmo a Veres”, com Blaya – e que conta com um teledisco no mínimo distinto. Regula é quase Adão, com umas cuecas feitas de erva e uma realidade paralela.

“O tema fala de um vício que tenho, que é fumar erva. Sou consumidor activo de THC e como esse tema fala disso disse ao João [Pedro Moreira, o realizador] que queria um clip humorista. A ideia é como se fosse gravar um vídeo no budget, ao estilo eu no meu bairro, na garagem do meu cota a filmar um vídeo mas que com a moca que estou vejo outra coisa. E como o refrão diz ‘I got weed on my balls’ ele sugeriu que estivesse o vídeo todo com umas cuecas feitas de erva. Adorei o resultado”, conta antes de dizer que percebe quem não gosta. “Quem idolatra um rapper, que é suposto estar com ar de mau e todo firme não entende que eu esteja ali com aquelas cuecas ridículas. Se estivesse com 16 ou 17 anos e visse o Method Man num vídeo daqueles também ia ficar triste, apenas porque ainda não percebia a cena. Agora estou mais maduro, tenho uma visão diferente.”

EMPATE TÉCNICO Tal como se aplica a políticos, futebolistas, e todas as profissões de cariz mediático, para as quais uma pergunta terá sempre a mesma resposta politicamente correcta, decidimos desafiar Regula a avaliar-se profissionalmente. Isto é, se se sente melhor enquanto rapper ou enquanto barbeiro. “Se me perguntasses isso quando estava a fazer o ‘Gancho’, dizia que era ela por ela. Hoje em dia acho que vou dizer que sou melhor rapper porque não tenho estado no activo, não tenho trabalhado como barbeiro, e como já há aí tendências novas e cortes novos é normal que me faltem uns três ou quatro elementos. Nada que não se resolva, em três meses espero que volte a ficar empatado.” 
À despedida agradecemos a gentileza e o ar triunfante como desfilamos de volta para onde viemos. Marcámos encontro no Lux, só para tirar as teimas e perceber se o estilo agrada. Se não agradar paciência, há que ser casca grossa.

in Jornal i

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