Rap de barba rija

Em vez do tradicional encontro numa esplanada de café ou no sossego de um escritório, Regula (nome artístico de Tiago Lopes) preferiu receber o SOL na sua nova barbearia, Pente Fino, inaugurada esta semana nos Olivais, em Lisboa. Sendo esta interlocutora uma mulher, o músico aproveitou a presença de um cliente no estabelecimento para, enquanto lhe cortava o cabelo, conversar sobre Casca Grossa, o seu novo álbum. Podíamos simplesmente sentar-nos numa das poltronas do salão, mas perante duas estreias (o álbum e a barbearia), Regula fez questão de unir as duas paixões no mesmo encontro. Até porque, conta, foi com o dinheiro da música que conseguiu concretizar o sonho de se tornar empresário, em vez de continuar a ser barbeiro em negócios de terceiros. 

É, então, de tesoura na mão, com o barulho ocasional do secador e pausas para explicar ao cliente porque também deve fazer «um pente três, em vez de ser tudo quatro», de modo a ficar «com um degradêzinho», que o rapper nos explica a razão de o dinheiro ser recorrente na escrita do novo trabalho. «A parte financeira conta muito por causa do meu passado. Não sou nenhum coitadinho, não passei fome, mas o dinheiro sempre me fez falta», diz, explicando que o divórcio dos pais em pequeno causou constrangimentos económicos na família. 

Entre outras rimas - «sempre honestas», espelhando «sem tretas» a pessoa que é - ouvimo-lo cantar, em 'Nasty': 'Quando era puto metia o dinheiro debaixo do colchão, agora saio do banco a rir com dois maços no blusão'; ou, em 'Casca Grossa': 'Estou a tentar fazer uma vivenda na Lapa', 'já não dá mais para viver à rasca' e 'estou aqui no hotel a fazer contas à vida enquanto alguém está a fazer o soundcheck'. Ecos directos ao seu percurso. «Quando comecei, há 13 anos, nem hotel tínhamos, íamos tocar e vínhamos no mesmo dia». 

Por isso, o dinheiro tornou-se «uma motivação», uma forma de confirmar que, apesar de todas as dúvidas, valia a pena continuar a acreditar em si. Ou, por outras palavras, continuar a ser um casca grossa. «Defino o título do disco em três palavras: endurance, autoconfiança e força de vontade. Uma peixeira que se levanta de madrugada para ir buscar o peixe e, às oito, está a vender é uma casca grossa». E a analogia serve para si. 

Artista self-made 

Até chegar a Pente Fino, Regula trabalhou em vários salões e barbearias, só se dedicando à música nas horas vagas. Ou seja, acumulou dívidas à cama, com as noites a serem preenchidas com a composição e os espectáculos, sem editora nem agenciamento. A tesoura só abrandou há dois anos, quando gravou Gancho e o disco caiu «no goto das pessoas». «Comecei a dar cada vez mais espectáculos e a poder contar com uma equipa. Como digo em 'Casca Grossa', já tenho quem vá fazer o soundcheck por mim enquanto fico a 'chillar' no hotel e a contar o dinheiro que recebi». 

É esse conforto que quer agora partilhar com as pessoas. «Já chega de falar de tristezas. Já rimei muitas vezes que não nasci num berço de ouro. Agora quero falar dos sonhos que tinha e de outros que quero conquistar, como ter uma vivenda igual à do Rui Veloso, com o meu estúdio lá dentro. Se for só drama já sabes como é o próximo álbum». 

O tom arejado e positivo dos novos temas não o afastam, porém, da sua génese enquanto rapper. «É um disco muito mais bairrista. Não tem temas amorosos como no Gancho, mas são experiências que falam a toda a gente porque, hoje em dia, as questões que aqui levanto tanto acontecem num bairro da lata como num prédio em Telheiras». Uma delas é o vício de fumar erva, que o próprio Regula assume, latente no tema 'WOMB', que arranca com 'I good weed on my balls', e que conta com um teledisco sui generis. Regula personifica a imagem de Adão, vestido com umas cuecas feitas de erva, 'viajando' ao ritmo do alucinógeno, que o faz estar rodeado de 'gajas boas' no céu quando, na realidade, está com 'camafeus' numa garagem velha e poeirenta. Uma brincadeira para mostrar que, afinal, um casca grossa também sabe rir de si próprio. 

 

in Sol 

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