Cada vez mais negra

Operam em colectivos ou individualmente e possuem um público fiel, apesar de passarem ao lado dos grandes meios de comunicação de massas. Têm nomes como NGA, Grognation, Mike El Nite ou DarkSunn e personificam o estilhaçar do fenómeno do hip-hop em Portugal – e uma nova cultura urbana.
Não, não é uma questão de pele. Nunca foi, aliás. Dizemos música ou cultura negra, mas tal não existe. Como não há música ou cultura branca. Mas inevitavelmente dizemos as duas coisas porque ainda não encontrámos nenhuma palavra que queira dizer o mesmo sem que a ganga simbólica venha atrás. Sim, é uma merda, ainda pensamos através de estereótipos que remetem para simbologias. Vai demorar ainda mais algumas gerações até que aceitemos com naturalidade que a ideia de uma “cultura negra portuguesa” nada tem a ver com a cor da pele ou com um passado africano. A música está a mostrar isso mesmo.

 

Hoje já vai sendo possível dizer que existe realmente uma “cultura urbana negra portuguesa”, por um lado conectada com a globalização do hip-hop, por outro assumindo as especificidades da última década, com uma progressiva assimilação de linguagens durante muito tempo desacreditadas, como o kuduro, a kizomba ou a tarraxinha. Temos facilidade em incorporá-las fisicamente, mas ainda as recusamos racionalmente como sendo portuguesas, o que é facilmente verificável a partir do momento em que utilizamos expressões (música lusófona, da segunda geração de portugueses, ou afro-portuguesa) que instituem a diferença, mesmo quando a ideia é legitimar a diversidade.

Mas a verdade, nua e crua, é que colectivos como os Força Suprema, Monster Jinx ou Grognation, no caso hip-hop, ou nomes como Buraka Som Sistema, Batida, DJ Marfox, Nigga Fox ou Throes + The Shine, por exemplo, no caso das mais recentes expressões urbanas, não fazem outra coisa que não música popular portuguesa. Claro que alguns destes agentes criativos também acabam por expor divisões, como se tivessem de optar entre ser “africanos” ou “portugueses”. Mas  de onde vem a obrigatoriedade de escolher? Porque não acumular?

Como é evidente o limbo existe, de parte a parte. Ou como diz NGA: “Não posso dizer que os portugueses não nos querem; afinal, criaram-nos e acolheram-nos, mas só até certo ponto. Até ao ponto em que não sejam postos em causa.”

Seja como for, a verdade é que, hoje, nos centros urbanos, nos espaços públicos ou nos carros, a música que se ouve mais é a kizomba, na sua versão mais plastificada, ou o hip-hop. E nas expressões de rua dos mais jovens sente-se a ginga maleável da língua portuguesa. Aquilo que até há uns anos dizíamos que estava confinado aos bairros da Grande Lisboa, chegou hoje ao centro. Nos lugares mais mundanos da capital, do Lux ao Park, ou ao Musicbox, as noites com hip-hop, na sua versão mais contemporânea,  são uma realidade. O mesmo acontecendo com expressões como o kuduro.

O que não significa visibilidade junto do grande público, uma realidade cada vez mais confinada a poucos, no mundo de ambiente comunicacional fragmentado em que vivemos. Como expõe DarkSunn: “Não tenho necessidade de enviar a minha música para as televisões, sem desprimor. A questão é que esse mercado generalista não me interessa porque não é ali que encontro as pessoas que se interessam pela nossa música.”

Nesse contexto, até a ideia de pertença se alterou. Os Força Suprema e os Grognation assumem-me como sendo da Linha de Sintra. No caso da Astro Records, ainda podemos identifica-la genericamente com a Grande Lisboa (os seus membros são de Alcântara, Telheiras, Vila Franca de Xira ou Massamá), mas no caso da Monster Jinx nem isso. Estão espalhados por todo o país, de Trás-os-Montes ao Algarve, com centro no Porto. É o país todo a ficar cada vez mais permeável à cultura negra urbana portuguesa. com Mário Lopes

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