A história do hip-hop português também é made in Zambujeira

Anualmente, o Sudoeste continua a ser um epicentro musical. Com o cartaz desta 19ª edição do festival há uma certeza: o hip-hop português continua de boa saúde e recomenda-se. Eis três bons exemplos.
Em 2015 há cada vez mais rappers portugueses a conquistar espaço nos grandes palcos. O caso do Festival Sudoeste, na Herdade da Casa Branca (Zambujeira do Mar, Alentejo), é paradigmático. Desde a primeira edição, em 1997, o hip-hop é uma presença constante nos alinhamentos e, nos últimos anos, o número de artistas deste género musical tem crescido e muito. Basta olhar para o cartaz deste ano: nunca tantos rappers atuaram numa única edição do evento.
O Observador falou com três artistas cujas carreiras também passaram pela pequena localidade alentejana: Carlão, Valete e Jimmy P. A partir de hoje, vão atuar nos palcos do festival, junto a outros representantes do hip-hop “tuga” como Dengaz, Regula, Mundo Segundo e Sam The Kid.

Carlão: “Muita pica”

Em 1997 o hip-hop português atravessava uma fase intermédia. Depois de projetos como a compilação RAPública (1994) e os trabalhos de General D, surgiram bandas com a fusão de vários estilos, que fizeram a ponte entre o hip-hop mais puro e os novos públicos que acorriam aos festivais. Cool Hipnoise e Da Weasel são exemplos desse pioneirismo. Ambos estiveram na primeira edição do Festival Sudoeste.

Para Carlão, ex-vocalista dos Da Weasel também conhecido por “Pacman”, essa actuação foi apenas mais uma, num ano que colocou a banda na “primeira liga” da cena musical. O sucesso do álbum “3º Capítulo”, com os singles “Duía” e “Todagente”, com “um percurso muito vivo [e] um reflexo disso” foi o concerto ter sido dos mais concorridos dessa edição do festival. “Correu tudo muito bem e, sim, já havia alguns festivais [na época], mas esta foi e é uma das maiores montras para os artistas”, resume.

“Não há assim tantas bandas ‘tugas’ no palco principal, mas é bom porque [a partir daqui] podem sempre marcar mais datas e voltar no próximo verão”, diz Carlão. Nos anos seguintes à primeira participação no festival, a banda voltou a aparecer nos alinhamentos, principalmente quando, em 2004, partilharam o destaque com o grupo Humanos. Carlão recorda esse ano, essa “época especialmente boa, em que deram ainda maior relevância à música portuguesa”.

Este ano a história é outra. Carlão sobe ao palco em nome individual para celebrar as quatro décadas de vida, com convidados e um quarteto de cordas a dar um toque especial. Na promoção do álbum “Quarenta” (2015) sente “um nervo diferente, com o risco e a adrenalina ao mesmo nível”. “O Sudoeste tem boas condições e o público costuma ser muito participativo. Tenho muita pica que vai ser uma boa atuação”, antecipa Carlão. Com mais de 20 anos de carreira, recorda os tempos em que no hip-hop nacional “não havia noção de produção e a duração média de um projeto era de cinco anos”. “Agora há mais datas, mais malta que sabe produzir [profissionalmente] e a música que tem saído é boa e constante”, contextuaria.

Carlão atua na noite de sexta-feira (7 agosto), no Palco MEO.

Valete: “Saber se estás a ‘bater’ nesse ano”

Há 12 anos que Valete não pisava os palcos quando se estreou no Sudoeste. As recordações desse concerto de 2011 não podiam ser melhores: “Foi assustador e foi incrível. Já estava há muito tempo fora dos palcos e, quando aconteceu, eram 30, 40 mil pessoas todas as cantar as músicas”. Fez um set arriscado, com faixas mais antigas, mas correu tudo bem. “É capaz de ser um dos poucos episódios, dos poucos concertos em que me lembro de tudo. Eu sentia-me em casa, estava à vontade”, recorda. A partir dessa estreia, o artista atuou como convidado em todas as edições seguintes.

Para Valete este evento é o “melhor termómetro para perceber se os jovens acompanham o que se está fazer, para saber se estás a ‘bater’ nesse ano” ou se as músicas não encontram recetividade no público. A maior atenção dada ao hip hop é também algo de natural, sendo já um “estilo incontornável”. “Há uma relação dos jovens cada vez mais forte com o hip hop, de maior afinidade, e vai ser impossível os promotores de espetáculos não valorizarem mais os rappers”, explica. E refere, por exemplo, Regula e Carlão como artistas com “muita estrada”, que atingem neste Sudoeste “um dos picos do circuito comercial”, já que se “implantou há pouco tempo a presença de rappers no palco principal”.

Este ano, Valete atua a convite de Jimmy P, mas há quem continue a pedir um novo álbum (o último disco de originais, “Serviço Público”, saiu há nove anos). Para ele, esta é uma pausa necessária: “Os rappers são, essencialmente, letristas e, neste momento, quis estudar música. Quero saber mais de produção, composição, apostar em sons novos e diferentes.”

Jimmy P: “Um dia vou ser eu…”

A experiência de Jimmy P é bem diferente. Ele passou antes pelos terrenos da Herdade da Casa Branca como campista e espectador atento. Há quatro anos, o Festival apresentava dois pesos-pesados do hip-hop mundial: Kanye West e Snoop Dogg. Jimmy estava com os amigos entre os milhares que compunham a audiência. “Lembro-me de ter apontado para o palco e ter dito à malta que um dia ia estar eu ali em cima”, revela. O gozo dos amigos vai ser recompensado este ano, quando o acompanharem, talvez do mesmo sítio onde viram Kanye, no concerto de dia 7 em pleno palco principal.

Nos anos após esse concerto premonitório, Jimmy dedicou-se “a sério” à música e em 2014 passou uma “prova de fogo”. “Fomos convidados para atuar no Sudoeste, noutro palco e ao mesmo tempo do John Newman. Era difícil competir, mas marcamos uns pontos valentes. Foi brutal, um mar de gente e um dos melhores concertos que demos”, recorda. Dez a vinte minutos após esta estreia em nome próprio no evento, já recebia o convite para o concerto deste ano.

O reconhecimento e distinções que recebeu em 2015 deixam-no “super feliz” e mostram que o hip hop português “está a vibrar mais do que nunca”. “Eu não digo que seja o estilo mais comprado, mas é quase de certeza o mais consumido. Nós já fomos a aldeias, festas e espaços onde nunca passaram rap e tivemos mil, duas mil pessoas a cantar as nossas músicas”, exemplifica. Por fim, uma certeza: “Este ano e este concerto marcam um ponto de viragem na carreira. Como artista é gratificante ser convidado para estes palcos e só quero continuar a gerar coisas boas, músicas boas”.

Jimmy P atua na noite de sexta-feira (7 agosto) no Palco MEO, com convidados: Valete, JêPê e Diro.

in Oberservador

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