Graffiti: uma arte reconhecida ou calada pela mídia?

Uma das grandezas das culturas populares é que se caracterizam por discursos livres de imposições da indústria cultural, que se formou no século passado e que exige certo padrão nas produções. 
De acordo com Stuart Hall, cultura popular é a cultura que nasce do povo, sendo que é nela que podemos encontrar a resistência, a luta por mudanças sociais. A palavra resistência se relaciona a conteúdos que carregam críticas, reflexões e intenções de mudança. Assim, podemos dizer que, através dessa cultura, conseguimos conhecer, identificar e ouvir as aspirações dos diferentes grupos sociais que habitam um mesmo território, a saber, as grandes cidades. 

Apesar de ter proximidade com diferentes formas de inscrição em muros (pichação, pixação, grapixo), o Graffiti está ligado ao movimento Hip Hop, que, desde o seu surgimento, tem como intenção combater a criminalidade existente nos territórios pobres e periféricos das sociedades. Criado no Bronx, NY, na década de 70, por Africa Bambaataa, o Hip Hop inclui elementos culturais como Dj, Graffiti, Rap e Break, tendo como lema a frase "Paz, Amor, União e Diversão". Portanto, seu significado está distante da maioria dos textos apresentados pela mídia, que o assimila como uma expressão relacionada à criminalidade. Isso porque jovens envolvidos com a criminalidade também começaram a produzir Hip Hop, a fim de fazer apologia aos modos de vida delinquentes. Sendo assim, Bambaataa incluiu mais um elemento que chamou de "conhecimento", que requer que o indivíduo tenha consciência social e disposição para passar a mensagem do movimento adiante, uma filosofia que nega as drogas ilícitas e a criminalidade, principais motivos da violência existida nos bairros periféricos. 
  
Portanto, o Graffiti, que era tratado como uma ação delinquente, passou a ser considerado expressão artística, tendo o incentivo de setores públicos e popular. Passou a ser incentivado pela mídia e a integrar as galerias de arte e eventos como a Bienal Internacional do Graffiti Fine Arte. 
  
O valor dado ao Graffiti é extremamente importante, pois, inegavelmente, trata-se de arte. Todavia, inquieta acompanhar as matérias que abordam a manifestação cultural sem dar ênfase à sua filosofia. Muitos textos publicados nos principais veículos de comunicação do país apresentam o Graffiti como arte, mas uma arte calada, já que não difundem que muitos deles possuem crítica acerca dos problemas sociais intenção do Hip Hop. 
  
Observação semelhante fez José Ramos Tinhorão, em 1975, no artigo "Meu Brasil Estrangeiro", publicado na extinta revista "O Cruzeiro". Na ocasião, o teórico discorreu sobre a banalização do Carnaval e sua desvalorização enquanto cultura popular, quando o gosto pela festa ampliou-se às outras camadas sociais e passou a incorporar elementos que o descaracterizaram. Histórias distantes da realidade das escolas de samba e as roupas criadas por estilistas renomados aproximavam os grupos mais abastados. A musicalidade passou a envolver outros enredos e nomes da música brasileira, que não os compositores de "música de carnaval", que ali tinham a única oportunidade de se apresentar à massa e dar vez e voz à cultura de seu grupo. 
  
Deste modo, assim como o Carnaval, o Graffiti tem preenchido espaços que até então lhe eram inacessíveis. Todavia, geralmente é apresentado a partir de uma visão que ignora o seu discurso além da arte. Quando exposto apenas sob a ótica da arte, sem uma abordagem histórico-social, deixa de envolver a filosofia do Hip Hop enquanto cultura de resistência. Se é proposital ou simples falta de informação, não sabemos. Mas uma coisa é certa: o Graffiti poderia ser apresentado de forma mais significativa, com exaltação da sua autenticidade. 
  
Thífani Postali é mestra em Comunicação e Cultura e professora da Uniso. Autora de "Blues e Hip Hop: uma perspectiva folkcomunicacional" e membro do grupo de pesquisa Mídias, Cidades e Práticas Socioculturais (MidCid). Blog: www.thifanipostali.com. 

in Jornal Cruzeiro Sul 

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