Deau Livro Aberto

O livro está aberto. Façam o favor de se perderem nestas páginas, que não são de papel, antes de sons, de palavras, de melodias e de batidas. De ideias. De imagens. De sonhos. Deau é um rapper especial. Melhor ainda: Deau é um artista especial. Porque a sua arte transcende um género. O seu novo trabalho tem por título Livro Aberto. São 10 polaróides, 10 pequenos contos carregados de vida e de realidade. E essa é a sua marca de diferença: mesmo quando projecta sonhos, Deau escolhe sempre uma parede real, de uma rua da sua Nova Gaia, para lançar as imagens. E nas suas rimas, palavras igualmente reais, com o calão que se recorta nas esquinas, com referências a memórias vividas na primeira pessoa – Mind da Gap, Valete, rodas de rimas, concertos. Tudo real. Tudo exposto neste Livro Aberto. 

 

São 10 temas que se revelam no segundo álbum de Deau. E poucas distracções: Expeão em Andorinha, Bezegol em “Diz-me Só”, “Império dos Sentidos” com Ace e “Rainha de Bugiganga” com Ana Lu. D “Diego” One nos beats, a oferecer soul, texturas acústicas, paisagens transparentes onde o que realmente importa é a respiração, o embalo, o flow e as palavras de Deau. Nada mais simples. Nada mais claro.

Este foi o ano em que Deau assinalou o décimo aniversário da sua primeira subida a um palco, no antigo Hard Club, numa das Nova Gaia Hip  Hop Sessions, mítico trampolim de várias carreiras, quando tudo o que valia a um MC era a sua postura, a sua força e a sua capacidade de equilibrar palavras de sentido em cima de beats fortes. Desde logo, Deau fez O início de tudo é anterior, no entanto. Começa algures no Grande Porto, em 1988, a data que o seu Cartão de Cidadão, onde se inscreve o nome Daniel Francisco, indica para o arranque da sua vida. A meio da década seguinte, Deau já tinha consciência da cultura que o haveria de acolher, mas foi preciso chegar este milénio para as primeiras palavras começarem a escorrer para os cadernos. A rua era a sua escola. Foi sempre assim.

E nas ruas inventam-se soluções, caminhos e identidades. Sem beats ou condições para gravar, Deau começou por se fazer notar nas rodas de improviso onde o que dita o respeito é a capacidade de improviso. E as palavras pareciam nascer, significantes e afiadas, dentro de Deau como a água numa nascente: puras, frescas, cheias de vontade de correr para dentro de ouvidos que as acolhessem. Esse nome da rua levou ao primeiro convite para a mixtape Illegal Promo III onde o seu tema "Lamento" fez a diferença, ecoando pelos subterrâneos do Porto e do País e impondo este nome cheio de sede e fome: Deau. Os convites foram-se sucedendo com eles registou-se o crescimento pessoal e artístico de Deau.

Em 2008, Deau encetou uma frutuosa colaboração artística com o Dj D-One que assinou a produção executiva de RetiEssências, o seu álbum de estreia. A colaboração foi aliás tão bem sucedida que dela resultaram mais uma série de faixas que ficaram de fora do álbum, mas não dos ouvidos de um público sedento que as acolheu quando Deau e D-One as decidiram disponibilizar, mesmo antes da saída do primeiro álbum, gesto de generosidade a que o público correspondeu com atenção.

A estreia de Deau vincou uma diferença. As suas rimas estão cheias de vida e é a própria biografia de Deau que se desprende de todas aquelas palavras. Por isso mesmo, os temas de Deau são retratos reais de uma vivência em comunidade, parte da razão para o impacto que registou no universo hip hop. As pessoas ouvem aqueles temas e sentem a sua vida por ali também. Porque Deau não se limita a apontar problemas e obstáculos, preferindo oferecer caminhos e soluções. Deau é um MC com espírito de missão. E isso vinca-lhe a diferença.

in NOS Discos

Partilhar
Google+